Texto Pe. Alfredinho

AMAR E AMOR

Ao longSDC16324o da história, poucas palavras foram tão sobrecarregadas de significado como o verbo amar e o substantivo amor. Significados diferentes e até contrastantes, que vão do mais volúvel e superficial sentimentalismo, ao mais sólido e duradouro compromisso, passando por uma série manifestações intermediárias do imenso leque de relacionamentos em que nos movemos. Tornou-se tão frequente o uso (e abuso) de “amar e amor” que o seu sentido primordial como que se perdeu na noite dos tempos. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que essa concepção se sublimou em poemas, representações, canções e obras imortais, também se vulgarizou numa repetição e banalização crescente de mediocridades apenas suportáveis.
De início, tomando emprestada uma observação de John P. Meier a respeito do amor a Deus e ao próximo (in Un Ebreo Marginale, ripensare il Gesù storico, vol. 4, sulla Legge e Amore, Ed. Queriniana, Brescia, 2008, pag. 502-504), faz-se necessário distinguir os conceitos de emoção e de amor. De fato, enquanto as emoções tendem a surfar nas ondas aparentes do grande oceano que é a alma humana, o amor rompe com as aparências da superfície, mergulhando nas entranhas mais íntimas, onde cria raízes profundas e permanentes. “Nas referências veterotestamentárias ao amor de Deus” – diz o autor – “amar é sobretudo uma questão de querer e de fazer, mesmo se a emoção não está certamente excluída da experiência complexiva”.
A verdade é que se, de um lado, a emoção “vai e vem” ao sabor dos sentimentos (na linguagem de Meier), por outro, o amor cimenta relações que não se desfazem com tanta facilidade. A primeira costuma provocar atos inesperados, repentinos, voluntariosos e momentâneos, mas, ao mesmo tempo, pode extinguir-se como uma chama ao mais leve sopro do vento. Já o amor tende a provocar atitudes que envolvem a vontade e a própria existência como um todo. Uma leva a ações impetuosas mas de curta duração, descartáveis; o outro empenha-se em um comportamento que implica todo um projeto de vida, com horizontes largos e raízes firmes sobre o contexto sociohistórico. Não seria exagero afirmar que o amor dispõe de pés e de asas, ao passo que a emoção conta apenas com asas, que facilmente se queimam sob a luz do sol ardente.
Voltemos ao texto supra citado: “Tanto no livro do Deuteronômio quanto no livro do Levítico, a palavra ‘amar’ tem um sentido concreto de querer e fazer o bem, não de haver bons sentimentos”. Embora estes últimos não sejam evidentemente dispensados, o amor vai além das reações imediatas e impetuosas, procurando construir, tijolo a tijolo, uma “casa sobre a rocha”. Na parábola do relato evangélico, a emoção ou paixão ardorosa e cheia de promessas impensadas representa, antes, a “casa sobre a areia”. “Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, e esta caiu, e a sua ruína foi completa” (Mt 7,24-27). Como bem sabemos, não faltam tormentas no país da emoção e do amor.
Na vida de um casal, no cotidiano de uma família, num relacionamento de amizade ou na convivência comunitária da vida religiosa consagrada, por exemplo, semelhante distinção entre o aspecto emocial e o amor adquire um caráter fundamental. Vale o mesmo para a fé e a esperança, com suas práticas de oração, meditação e contemlação, por uma parte, e de caridade e solicitude social, por outra. Com efeito, na relação com o Transcendente e nas relações interpessoais, nem sempre predomina o entusiasmo primaverial e a alegria efusiva do encontro. Quer na oração com o “totalmente Outro”, quer nos contatos vivos e diversos com o “outro”, às vezes se interpõem sentimentos selvagens e indesejados, tais como a raiva e o ódio, a inveja e o ciúme, e mesmo o rancor e a vingança. Fazem parte do terreno ambíguo, sinuoso e labiríntico da condição humana, tão bem personificadas nos atores que desfilam pelo palco nas obras teatrais de Shakespeare.
Diante dessa ambivalência, emoção e amor, uma vez mais, se comportam de forma distinta e até contraditória. Enquanto a primeira, de natureza volúvel e versátil, procura buscar em outro lugar motivações para sua tendência a uma contínua embriaguez, o segundo, alicerçado no compromisso, se reveste de paciência, compreensão e reconhecimento. E quanto mais profundas suas raízes, tanto mais buscará no diálogo, no perdão e na reconciliação uma via de saída. Na adversidade, a emoção foge atrás de outro “objeto” que lhe proporcione prazer instantâneo, ilusões sem fim; o amor, em lugar disso, agarra-se com força à perseverança e à fidelidade da relação, tentando a todo custo reconstruir a “casa” ameaçada. Aquela voa de galho em galho, ao sabor dos ventos favoráveis; este mantém-se fiel e firme, como o é o Deus de Israel.
Por isso é que, ao lado da emoção apaixonada que envolve a intimidade com Deus, na oração, e a convivência com os outros, em relacionamentos variados, torna-se urgente erguer, passo a passo, um vínculo recíproco de ternura e carinho, como diria o Papa Francisco. São esses sentimentos – a ternura e o carinho – que em última instância haverão de garantir uma relação sólida, duradoura. Mesmo exposta às rajadas furiosas das tormentas do dia-a-dia, ela manter-se-á de pé. Afinal, não nos é permitido esquecer que são muitas, e cada vez mais frequentes, as ameaças que rondam a vida matrimonial, o ambiente familiar, a amizade e a vida religiosa consagrada. As instituições básicas da sociedade parecem derreter-se diante do calor febril e irrequieto dos desejos e paixões, ou sucumbir à agitação rumorosa do mercado em permanente ebulição.
Mas há um outro motivo que requer igual atenção e fidelidade. É amplamente conhecido e notório o desgaste que a convivência diária costuma provocar nas relações interpessoais, familiares, amigáveis e comunitárias. Chega-se ao ponto de não mais suportar os hábitos, os gostos, os ruídos, a voz, as efusões de alegria ou a tristeza de quem vive, convive ou trabalha ao nosso lado. Um veneno sutil e invisível penetra na atmosfera, tornando o ar pesado e irrespirável. Quem não conhece de perto tais sintomas, acompanhados de olhares, palavras e silêncos oblíquos!?… O mesmo desgaste costuma corroer igualmente a prática da oração, da meditação e da contemplação, especialmente quando esta se limita a fórmulas, gestos e rituais exteriorizados, por um lado, ou quando se expõe a um emocionalismo lacrimoso, transitório e inócuo, por outro. A rotina e a indiferença figuram como os dois inimigos mais perniciosos, seja na busca da intimidade com Deus, seja no relacionamento interpessoal. A mesmice cotidiana apaga a chama da paixão, mas não é dito que possa varrer com igual facilidade o sólido edifício do amor.
Duas coisas são absolutamente necessárias e complementares para mantê-lo vivo e ativo. Primeiro, vale repetir, o cultivo intenso e perseverante do carinho, do diálogo recíproco, da ternura e do cuidado com o outro (Deus ou pessoa), salvaguardando ao mesmo tempo a privacidade e a relação. Segundo, uma atividade prática e prazerosa que envolva, por exemplo, o casal, a família, os amigos, a comunidade, ou, no caso da fé e da esperança, que represente o desdobramento da oração em ações solidárias para com os pobres e excluídos. Essa dupla dimensão do amor vai muito além da emoção imediata ou da moda em vigor. Mais do que atos movidos pelo sentimento, busca manter, construir e/ou reforçar uma atitude de compromisso, um ponto de apoio, tanto mais válido quanto mais, hoje em dia, nos vemos seduzidos, atraídos e arrastados pelo turbilhão de uma sociedade destituída de referências.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
Roma, 28 de janeiro de 2015

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