Imigrantes resgatados do mar ainda têm a morte como companheira na Líbia

Escondido em um labirinto de ruas sujas com cheiro de sal, a poucos metros do mar que devora suas vidas e tritura suas esperanças, o centro de amparo a imigrantes de Misrata exala suor e tristeza. Construído para abrigar 600 pessoas, em suas precárias salas estão empilhadas há semanas mais de mil rostos procedentes da África Subsaariana e do Oriente Médio, em uma Torre de Babel onde imperam o árabe e o silêncio. O lugar tem mofo, mas mesmo assim alguns se consideram sortudos por estar ali: os pescadores e guarda-costeiros líbios os devolveram vivos a sua miserável existência depois que o mar arruinou com suas esperanças negociadas pela máfia. Outros nem sequer puderam tentar. Apesar de terem pagado com suas mãos cheias de calos a ‘taxa de embarque’, foram detidos pelas autoridades líbias quando procuravam os patrões da morte. “Cheguei a pé a Al Kofra, no Sudão, e depois a Ajdabiyah, sem comida nem água. De lá, após dois dias em uma grande tenda isolada, fomos a Trípoli em busca da pessoa que nos embarcaria. Acabamos detidos pela polícia. Gastamos US$ 600 (R$1.817)”, contou à Agência Efe com a voz cansada Mustafa Abdelaziz, um homem somali de 22 anos, que por algum tempo tentou ganhar a vida como operário na Arábia Saudita. Sua história é a mesma de tantas outras pessoas que estão apinhadas neste local, incluindo mulheres grávidas carregadas de desesperança. Uma tragédia de repetidos enganos, tão miserável quanto reiterada, que também viveu Ahmad Hussein, um egípcio de 57 anos, que agora dorme em um quarto úmido e cinza, onde até respirar é difícil. “O traficante me garantiu que eu viajaria com os meus documentos verdadeiros, sem que ninguém me prendesse nos postos de controle, mas descobrimos o contrário. Passaram quatro meses e não conseguimos nem mesmo falar com as nossas famílias. O chefe do centro ligou para a embaixada egípcia em Túnis, mas eles fizeram pouco caso”, relatou Hussein, o mais velho de um grupo de 50 egípcios. Amontoados em Misrata, 220 quilômetros ao leste de Trípoli, nenhum deles sabe agora qual será o seu destino. Provavelmente serão transferidos a outro abrigo, todos eles saturados, até fugirem ou serem deportados. “Aqui não temos as condições básicas necessárias para atender esse número de pessoas. Os serviços de saúde são insuficientes, quase inexistentes, e as condições são muito ruins”, explicou o diretor do centro, Mohammed al Bakar. Para ele, a imigração irregular da Líbia não é um assunto passageiro, mas um mal que corre o risco de se tornar crônico se o país não receber ajuda internacional. “Sem apoio, a imigração ilegal não será eliminada. Possuímos forças em terra, mas carecemos de meios, mecanismos e instrumentos de comunicação para lutar contra ela no mar”, ressaltou. A Líbia é um Estado repleto de problemas, vítima do caos e da guerra civil, desde que em 2011 a comunidade internacional contribuiu na derrubada do regime ditatorial de Muammar Kadafi. Desde então, o país se transformou em local de passagem rumo à Europa para milhares de pessoas que fogem da fome, da pobreza, da guerra e da falta de oportunidades em seu lugar de origem ao longo de seus 1.770 quilômetros de costa. Nas últimas semanas, mais de cinco mil imigrantes ilegais foram resgatados quando tentavam atravessar o Mar Mediterrâneo rumo à Itália. Aproximadamente, mil morreram afogados e 600 foram detidos quando se preparavam para embarcar. Ahmed Baiu, responsável pelas mudanças no alojamento de Misrata, admite que perante a saturação e a falta de recursos, as autoridades optaram por abrir outros centros, com as mesmas condições, e afastá-los com o objeto final de colocá-los do outro lado da fronteira. Uma viagem igualmente arriscada para a vida dos imigrantes, que salvos do mar, podem morrer de asfixia em um abarrotado caminhão-contêiner ou de sede nos desertos do sul da Líbia. “Ao todo, 320 pessoas de diferentes nacionalidades africanas foram levadas à cidade de Sabha, para serem transferidas a seus países de origem”, revelou. Segundo Baiu, elas fazem parte de um grupo resgatado na semana passada no litoral da Líbia. Um remendo mal feito, admitem em voz baixa os responsáveis líbios, já que muitos retornarão. Algo fácil de fazer na Líbia é obter o contato de alguma máfia, que voltará a expor os imigrantes a riscos, maus tratos e a morte.
20/5/2015 às 10h02
Mohamad Abdel Malik. Misrata (Líbia), 20 mai (EFE)http://noticias.r7.com/internacional/imigrantes-resgatados-do-mar-ainda-tem-a-morte-como-companheira-na-libia-20052015

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