À mercê da força bruta

“A primeira exigência da civilização, portanto, é a da justiça, ou seja, a garantia de que uma lei, uma vez criada, não será violada em favor de um indivíduo [ou de uma casta]. O resultado final seria um estatuto legal para o qual todos – exceto os incapazes de ingressar numa comunidade – contribuíram com um sacrifício de seus instintos, que não deixa ninguém à mercê da força bruta.” (O Mal Estar na Civilização, Sigmund Freud, 1930).

A reflexão de Freud no livro publicado 87 anos atrás lembra que o Brasil continua longe de ser “civilizado”.  Na série de pesquisas publicada pelo Datafolha no início da semana – das quais se destacou a impopularidade do presidente Michel Temer reduzido a 7% de aprovação – uma informação crucial passou quase despercebida: 92% dos brasileiros acreditam que a Justiça trata melhor os ricos do que os pobres.

Uma estatística que se escancara na força bruta – aquela que vigora quando inexiste a justiça – utilizada pelo Estado todos os dias nas periferias brasileiras. Para ficar no fato da semana: um jovem de 18 anos, pai de uma menina de 2 anos, foi executado pela Rota na terça-feira passada em São Paulo. Usuário de cocaína, o garoto fugiu dos PMs com medo de apanhar. Foi seguido por quatro policiais e assassinado dentro de sua casa na favela do Moinho depois de ser brutalmente torturado com um martelo.

A irmã dele, Letícia, conta que ela e a mãe, Odete, foram impedidas de entrar na casa onde o aparelho de som estava com o volume máximo. “Mesmo com o som alto, deu para ouvir um barulho que parecia um tiro abafado”,disse à Ponte. Leandro foi retirado de maca pelos fundos do barraco. A casa estava ensanguentada, assim como o martelo que dona Odete diz ter sido usado para torturar o filho. “Meu filho tinha os dentes perfeitos, eles quebraram todos. Ele tinha marca de martelada no rosto”, contou depois de finalmente localizar o cadáver do filho no necrotério. Ele tinha cinco marcas de tiros, no peito e no abdome.

Somos uma sociedade violenta, cruel mesmo, desde a fundação do país. As marcas da injustiça – e de sua parceira, a brutalidade – estão em toda parte. Rastreá-las, reconhecê-las de frente sem negar a nossa história talvez seja o passo primordial para que nossa sociedade se transforme até não deixar ninguém “à mercê da força bruta”.

É esse o sentido do “Museu de Ontem”, o aplicativo que lançamos essa semana para revelar as muitas camadas do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Ali, onde hoje se vê obras milionárias que alimentaram a corrupção de políticos como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral – presos pela Lava Jato – esconde-se um passado que explica muito do que vivemos hoje.

Como descreve a co-diretora Natália Viana, coordenadora do projeto: “Pelas mesmas ruas onde os portugueses vendiam e compravam africanos escravizados nus e famintos em lojas que eram verdadeiros depósitos, como cavalos, também passeou uma multidão de estudantes carregando o corpo de um jovem de 17 anos, Edson Luís, assassinado pelo governo militar. Ali ficava o Dops do Rio; ali existiam três morros que foram implodidos e pedras majestosas que foram cortadas; ali nasceu a primeira favela do Brasil. O passado do Porto do Rio é tão rico, que é revoltante o quão pouco se fez até agora para lembrar esses episódios. As placas são poucas. Os circuitos históricos, sub explorados.”

Baixando o aplicativo é possível revisitar esse passado escondido no Porto do Rio. Uma experiência inesquecível. Afinal, relembrar é condição para a transformação, como também ensinou o pai da psicanálise.

Marina Amaral, codiretora da Agência Pública

Anúncios

Sobre SPM - Serviço Pastoral dos Migrantes

O Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) é uma Pastoral Social, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1985, que promove os direitos humanos, sociais, econômicos, políticos e culturais dos migrantes e imigrantes e comunidades de origem, trânsito e destino.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s