A luta incansável de uma mexicana pelos direitos dos migrantes não documentados nos EUA

Ilka Oliva Corado

Adital

Para saciar a curiosidade de tudo o que está ao redor do nome Elvira Arellano, que já é toda uma instituição na luta pelos direitos humanos dos migrantes indocumentados, dentro e fora dos Estados Unidos, só é necessário escrever seu nome em algum buscador da Internet e aparecerão centenas de milhares de artigos, seu nome desperta paixões em favor e contra da migração indocumentada.

Levava dois anos seguindo seus rastros e procurando entrevistá-la, o que não foi possível até o último dia 30 de setembro, quando pude conhecê-la pessoalmente e conversar con ela. Minha impressão? A de uma mulher muito capaz, com uma voz poderosa que atravessa fronteiras, em seu caso de santuário e deportação deu a volta ao mundo. Por que entrevistar Elvira Arellano? Porque chegou a este país como os milhões que vivem nas sombras da marginalização e exploração trabalhista, porque há muito o que aprender com ela, porque não aparenta, porque é autêntica. Porque é tão cabal pôde muito bem tirar vantagens para si e renunciou a toda forma de compra-venda, para fazer de sua voz o protesto e o escudo de milhões.

Um líder não se faz, ele nasce. Não há escolas nem universidades que respaldem com um título ou diploma, é a vida mesmo, a batalha diária e a consciência e sede de justiça, que despertam do pensamento à ação.

A entrevista foi realizada na Igreja Metodista Unida Adalberto, localizada no bairro portorriquenho da cidade de Chicago. O enfoque desta entrevista é o de um dos tantos rostos da migração forçada, do trabalho de ativista de Elvira há muitíssima informação na Internet, mas o que se sente migrar, quais são as causas, como se vive um santuário, a perseguição dos meios de comunicação, como se vive uma deportação e, posteriormente, o retorno. Elvira não costuma falar de sua vida pessoal, contudo, nessa ocasião, concordou, talvez porque não sou jornalista, mas uma indocumentada a mis que a procurou para conversar como fazem duas meninas ariscas que atravessam o território mexicano sonhando cruzar a fronteira e chegar ao território estadunidense.

Tem um caráter de brio, uma vontade inquebrantável que já foi posta à prova em uma infinidade de ocasiões. Saiba, leia e entenda que um dia neste país haverão escolas, institutos e centros culturais que levarão o nome de Elvira Arellano.

Muitos a chamam de Rosa Parks mexicana, em minha opinião é do relevo da grande Dolores Huerta, tem o tesão, a palavra, a honra, a vocação, a identidade, o sentido de pertencimento e uma dignidade que não cabe no peito. Ela é capaz de transformar, de contagiar de harmonia e escrúpulo, é capaz de despertar multidões.

Crônicas de uma Inquilina hoje apresenta a única, a voz de milhões de indocumentados nos Estados Unidos e no mundo, oriunda de Maravatío, Michoacán, México, hoje a fazemos nossa como um ser universal.

Compartilha esta entrevista, não a guarde, não fiquei apenas para você.

Ativismo de baixo

Chamou minha atenção que ainda deportada continuasse firme em tua denúncia, nos manifestos coletivos, e algo que me encantou foi sua forma consequente de usar as redes sociais, quem quer pode, não há desculpa que valha quando a consciência exige justiça e demanda solidariedade humana. Não é da boca para fora.

Concientizar as mesmas pessoas, por exemplo, em meu povo, muita gente critica e diz: por que ela anda ajudando outras pessoas e não faz aqui no povo? E eu lhes digo: bom, organizem-se e eu apoio vocês. Tinha um caso de alguém que me dizia que haviam sequestrado um familiar seu, que havia muita extorsão, e me dizia: olha, tu tens que fazer algo por isso, esquece dos migrantes, faça um trabalho aqui no povo. Disse a eles: eu, graças a Deus, não fui vítima de extorsão, por telefone somente, porque as ligações com ameaças é algo que tenho recebido durante anos, mas organizem-se e eu com muito prazer os apoio, mas não sou eu que tem que fazer tudo.

Como foi sua infância em Michoacán?

Foi muito bonita, ainda que fôssemos pobres éramos felizes. Desde menina, eu sonhava em viver melhor, meu avô foi estivador e tinha seu crachá de quando foi estivador, e nós víamos os filmes das pessoas que vinham para o norte, e sempre falavam do famoso cartão verde (green card); e minha irmã e eu sempre brincábamos de que vínhamos para o norte, então, brincávamos com o crachá do meu avô. Quantos vocês são? Somos cinco, eu sou a mais nova, com minha irmã são dois anos de diferença, com ela era que eu mais partilhava. E dos filhos sú você veio? Não, meus dois irmãos mais velhos vieram muito antes de mim, um deles regressou e o outro está vivendo aqui nos Estados Unidos com a sua família, tem suas duas filhas, que são gêmeas, são “Sonhadoras”, e também tem seus dois filhos, que são cidadãos estadunidenses. Está sem documentos? Sim, eu não falei muito da minha vida pessoal porque era um tempo muito difícil, creio que na administração do presidente Bush (filho) foi um tiempo muito difícil quanto ao racismo e à xenofobia.

O ambiente era muito difícil, minhas sobrinhas inclusive iam comigo para Washington dialogar comigo; com os congressistas, com os senadores, às marchas, sempre separadamente, eu ia com a organização e elas por sua própria conta. Foi até quando estive na igreja e me preguntaram se eu tinha família e eu lhes disse que não; por que? porque eu não queria expô-los, ainda que eles sempre me diziam que não importava, o que você tem que dizer não importa, eu disse que não tinha medo de ninguém porque se você luta tem que fazer com mais razão, não ter medo. E quando eu estive na igreja aqui na igreja eles vinham me visitar.

Pelo que me contas entendo que sempre quiseste vir para os Estados Unidos.

Sim, desde que tinha 15 anos. Eu dizia: eu quero trabalhar e ganhar dólares, eu pensava como todo mundo, que a vida era fácil e que se vem para os Estados Unidos para ganhar dólares. O que acontece é que, desafortunadamente, os seres humanos são demasiado defeituosos. No meu povo, por exemplo; as pessoas que vinham para os Estados Unidos sempre chegavam vestindo do melhor, chegavam mostrando dólares, chegavam mostrando suas caminhonetes, os que conseguiam economizar e comprar sua caminhonete, e ligavam o rádio a todo volumen – o tom em que diz isso me faz rir a gargalhadas porque da mesma forma acontece na Guatemala. Chegavam a mostrar tanto, seus tênis Nike novos e nós dizíamos emocionados: nossa, sim, ganha-se em dólares!

Mas nunca chegavam falando de todos os sacrifícios que faziam, da discriminação, que trabalhavam como burros de carga – acrescento: como mula, como burros de carga até três turnos por dia – andar se escondendo tanto da imigração como da polícia, tudo chegavam contando ao contrario, ou seja, falavam o melhor, como dizer: eu não tenho problemas de que a imigração me pegue, lá onde eu vivo tudo é tranquilo, trabalham, ganham dólares, falam como se fosse a maravilha do mundo, verdade.

Você pensa que é tão fácil e diz: já cansei de trabalhar aqui, ganha tão pouco e apenas o suficiente para sobreviver. Graças aos meus pais eu pude estudar, terminei meu secundário e fiz dois años de uma carreira técnica, sou secretária empresarial e sim trabalhei com isso, mas você quer calçar e se vestir melhor e o salário apenas dá para sobreviver, e disse, bom, vou para os Estados Unidos.

Mas antes fui viver em Reynosa, Tamaulipas, lá vive uma tia e trabalhei porque eu queria vir para os Estados Unidos de uma forma legal e minha tia estava aprontando seus documentos porque vivia na fronteira e é que as pessoas que vivem na fronteira podem tramitar seu visto fronteiriço. Fui e trabalhei por um bom tempo, mas nunca mudei minha credencial de leitor e sempre mantive o endereço de Michoacán, então, quando fui solicitar me disseram que não porque tinha que ter o endereço e voltei a viver em Michoacán e depois voltei para Tamaulipas, foi quando decidi vir para os Estados Unidos.

Em que ano foi?

Em 1996 fui viver em Reynosa. E com quantos anos vieste? Com 22 creio. Em 1997, foi quando vim para este país.

Como cruzou a fronteira?

Cruzei sem documentos pelo lado de Mexicali-Calexico. Mexicali pertence ao México e Calexico já é Califórnia, Estados Unidos. E lá cómo é, há deserto, rio, como foi a passagem? Eu não cruzei pelo deserto, fiz por onde as pessoas entram no país com documentos, no simples cruzamento fronteiriço, escondida. Há um acostamento onde atravessam os automóveis e por ali saem e entram os pedestres e eu cruzei no espaço que utilizam quando as pessoas já estão saindo rumo ao México, isso dá voltas e há um momento em que param e fica um espaço onde cabe uma pessoa, por ali, me encostei e cruzei. Do outro lado estavam me esperando e fui para Salinas, Califórnia, e de lá para San José, na Califórnia também, e de lá para Seattle, Washington, lá cheguei a viver com minha prima. Lá, trabalhava cuidando de crianças e em uma lavanderia.

Como chegaste a Chicago?

Bom, aqui viviam meus irmãos. Saulito – seu filho mais velho – nasceu em Washington e sua relação com seu pai não deu certo e decidi enfrentar minhas responsabilidades como mãe solteira. Com o pai de Emiliano – seu filho mais que, em alguns días, fará aniversario – foi diferente, com o pai dele tinha que pedir autorização até para cortar o cabelo do menino. Rimos a gargalhadas, nada mais dramático do que pedir autorização ao pai para cortar o cabelo do seu filho, mas que perguntem ao meu pai. Ele está aqui? Não, no México. E que disse a ele? Meu amor, vou cortar o cabelo do menino. Não – continuamos rindo, – como eu sempre tomei decisões porque as tomo, pois primeiro corto o cabelo e depois se zangou porque cortei o cabelo do menino. Manda para ele a foto com o cabelo curto, é capaz? É algo que me faz rir porque corto o cabelo e já se zanga, já explode. Passa o tempo o menino vê que está com o cabelo grande como agora e me diz, olhe, corta as pontas, nada mais, e eu rio e digo: em primeiro lugar, eu não sou sua empregada, você não manda em mim. Em segundo, como seu pai não quer que eu corte seu cabelo vou deixar grande até que seu pai chegue aos Estados Unidos e o leve para cortar o cabelo, e me diz: bom, ahora já entendes, já sabes quem manda. Outra gargalhada compartilhada.

O que você sentiu quando migrou?

Foi difícil porque, primeiro, eu não tinha os recursos, segundo, porque meus pais não queriam que eu fizesse por ser mulher, inclusive, quando fiquei grávida de Saulito, meu pai, ele sempre esteve triste porque pensou que fizeram algo contra mim e que eu não queria dizer e com ele nunca falei sobre a decisão de ter enfrentado minha realidade sozinha, com minha mãe sim. Eu decidi ter Saulito porque quis e sempre falei com meu filho e disse para ele. Que idade tem o menino?15 anos. Ou seja, quase que o tiveste quando recém chegou. Sim, quando ele tinha um ano e meio nos mudamos para Chicago.

Você teve depressão depois de emigrar?

Quando vim pela primeira vez não, nestasegunda, sim. Todavia foi o momento em que eu disse não, eu não estou feliz aqui, mas disse Deus meu, tu tens me dado tanto e eu tenho que estar agradecida porque estava no México e quería voltar para os Estados Unidos e agora que estou aqui não estou gostando, mas é pela situação na qual estamos vivendo: não tenho um trabalho, tenho uma criança pequeña, que nasceu no México, não tenho um seguro médico e se adoece só tem Tylenol – paracetamol – e se tem outra coisa lhe dou para a tosse e gripe. É difícil. Graças a Deus e a meus pais lá no México eu tenho uma casa onde viver, tinha meu carrinho e tive que vender fiado para que me paguem agora em dezembro. Nós duas rimos com picardia, sabemos o que é fiar e que nos comprem fiado.

Apreensão, acusações federais e igreja.

Em 2007, seu caso tomou de assalto os noticiários nacionais e internacionais, lembro que todos os dias saíam notas e Elvira Arellano se converteu em uma voz que desnudou o racismo que este país tem contra os migrantes e perversamente contra os não documentados. É um sistema de política migratória detestável. Antes daquele ano eras invisível como os milhões de não documentados que vivem entre as sombras. Como chegou a situação ao grau de se ver na necessidade de entrar na igreja?

Fui presa nas apreensões aos aeropuertos em 10 de dezembro de 2002, depois dos ataques terroristas, o governo federal começou a fazer apreensões em nome da segurança nacional buscando possíveis terroristas – a interrompe o alarme de um automóvel que está estacionado na rua, nesse instante entra uma senhora curiosa com a venda de roupa de segunda mão, paramos a entrevista enquanto Elvira a atende, não compra nada, vai embora. Continuamos – não encontraram terroristas só famílias como eu, que trabalhávamos para sustentar nossos filhos. Trabalhava no aeroporto internacional de O`hare. Chegaram oito agentes federais em minha casa perguntando se eu tinha armas ou licença para portá-las, tratando-me como seu eu fosse uma terrorista. Levaram-me presa, meu filho deixei com a pessoa cuidava dele, me fizeram acusações federais por ter utilizado um número de seguro social de outra pessoa, me puseram em processo de deportação. O F.B.I. trazia o reporte do número social que eu estava utilizando, era de uma mulher polaca e revisaram tudo e o recorde para ver se ela tinha sido afetada, mas não, eu só lo usava para trabalhar. Imagino que o comprou na Villita como todo o mundo, sim como todo o mundo comprei lá. A Villita é o coração do bairro mexicano do povoado de Pilsen, en Illinois.

Deixaram em sair em liberdade sob fiança de 4 mil e 500 dólares, que eu assinei, se violo a fiança terei que pagar, fazem acusações contra mim, não posso sair do Estado, nem me mudar dos Estados até que resolvessem meu caso. Antes disso, foi o tempo mais tranquilo que eu vivi nos Estados Unidos. Como foi que te deixaram sair? Por ser de baixos recursos lá mesmo me disponibilizaram um advogado de ofício federal. Meus companheiros de trabalho me ligavam, mas como tinha o celular descarregado até quando saí, escutei e me deixaram varias mensagens para que não fosse ao trabalho porque estavam fazendo apreensões, liguei para eles para contar que tinham ido à minha casa e me processaram e me fizeram acusações federais. Ou seja, que por causa das acusações federais não te deportaram imediatamente, não queriam nem saber quantos anos de prisão antes de te deportarem, sim.

Foi quando comecei a ir à imigração, ao consulado mexicano. No consulado mexicano me diziam – mude o tom de voz, escuto você séria e agressiva – pues se vão te deportar tem que ir, não podemos fazer outra coisa a mais por você, não temos advogados. É igual como acontece com o consulado da Guatemala, são a mesma porcaria, ah não, mas os da Guatemala estão piorres!Rimos a gargalhadase enquanto eu trato de apagar o incêndio em meu rosto, provocado pela grande ‘bofetada’ que acabo de receber – os consulados centro-americanos são os piores – estou completamente de acordo. O que tenho entendido é que os consulados estão no estrangeiro para representar a comunidade documentada, não os não documentados.

Por exemplo cuando vou ao consulado mexicano pego fila como todos os demais, e as pessoas me veem, me reconhecem e me dizem que não deveria pegar fila porque sou Elvira Arellano, e eu lhes digo que claro que sim, porque se eu busco ter influência e contatos, ter privilégios, sim podem me dar, mas se no dia de amanhã vocês me dizem que os discriminam no consulado e que os tratam mal, eu pelos privilégios que recebo a única coisa que poderei dizer é que não posso fazer nada a respeito, mas, em contrapartida, sendo mais uma eu lhes digo para xingar, como que essas criaturas estão fazendo isso, vamos fazer um protesto, eu tenho peito para protestar. E isso me encanta nela, que não utiliza os focos para benefício pessoal porque sabe que nas sombras há milhões e sua voz é poderosa porque nasce daí mesmo; da marginalização.

Vou te contar que quando recém me arrestaram, no consulado mexicano me apoiaram economicamente porque eu já não estava trabalhando, não sei se foram 100 ou 150 dólares, e por essa quantidade fizeram uma grande festa, contando por todos lados que eles tinham ajudado economicamente a senhora Elvira Arellano, quando ela veio aquí, nós a ajudamos. Não tinha dinheiro para fazer o trâmite, mas graças a Deus minha família e amizades me ajudaram a completar o dinheiro, eu fui e fiz o trâmite. Mas se eu vou e digo que não tenho dinheiro com maior razão compram para mim. O menino acorda, já tem o cabelo comprido, e Elvira o senta no carrinho. Onde vivias nesse tempo? Em Pilsen, na rua 18 e May.

Veja – e me aponta um recorte de jornal que está pregado na parede, no qual aparece ela junto a líderes comunitários e pastores – foi uma vigília realizada no dia 20 de dezembro de 2002 no aeroporto O`hare, no terminal 1, aí foi onde conheci toda a congregação da Igreja Metodista – onde vive atualmente e estamos realizando a entrevista – já tinha conhecido o pastor, mas como ele falava inglês e eu español, pois não nos entendíamos. Me convidaram a visitar a igreja e aceitei, vim como freguesa. Para o você veio em que ano? Em 2006. – toma o menino nos braços e vai tumo à porta de entrada e me aponta a rua – muita gente pensa que eu vim correndo, que a imigração veio correndo atrás de mim e eu encontrei a porta aberta da igreja e entrei para me esconder – vejo a expressão facial e não posso conter o riso, nós dias rimos e o menino de cabelo comprido deixa de chorar, seguramente o assustamos imagino a cena como de um filme, você correndo e consegue encontrar a porta aberta, é que no México assim contam.

Em 2003, já era membro da igreja, e antes de vir a essa igreja vivi em outra igreja, do pastor Landaverde, ali pela 26 – Pilsen – estive lá por oito meses porque já havia chegado minha carta de deportação, mas o congressista Luis Gutiérrez – de origem portorriquenha, um dos homens mais honrados que podem existir na luta legal em favor da comunidade não documentada – e o senador Dick Durbin introduziram uma proposta de lei para deter minha deportação, conseguem detê-la, pois iria surtir efeito em 10 de setembro de 2003.

Família Latina Unida.

Em 2004, foi quando formamos a campanha Família Latina Unida, sob a liderança da mina pastora Enma Lozano e minha, e começam a chegar mais famílias. Uma dessas famílias é a da nossa irmã Julie Contreras, que agora está na LULAC – League of United Latin American Citicenz – é uma das líderes mais importantes da Família Latina Unida, que está em Waukegan – uma cidade do Estado de Illinois – onde está a maior comunidade de hondurenhos, estão fazendo um ministério legal e oferecendo assessoria para buscar um advogado para essas crianças hondurenhas que têm chegado com a “crise.”

Todo o ano de 2003 já estava lutando em favor de uma reforma migratória, participo de manifestações, reuniões, de todas as atividades pró reforma, em favor das licenças de dirigir, e também do meu caso para ficar neste país. Em 2004, formamos a Família Latina Unida, em 2005, nos focamos em buscar um perdão presidencial – administração Bush – e que nos permitissem ficar aqui, das 35 famílias que apresentaram a solicitação de perdão só eu já era elegível por minha questão das acusações federais. Eu digo não vamos lutar por um perdão, eu não necessito de um perdão – o próprio – vamos lutar por todas as famílias.

Nos organizamos e começamos uma sensibilização muito forte com as famílias que íam a Washington, com senadores, obtivemos muito apoio de vários congresistas, principalmente Luis Gutiérrez. Ele era parte do comitê da Família Latina Unida, juntamente com o vereador Dany Solís e o doutor José López, irmão de Oscar López – portorriquenho, preso político – o senhor Rodolfo Benítez também, que teve sua esposa deportada estando grávida de quatro meses. Em 2004, veio o presidente Fox – México – esteve em Cicero – cidade de Illinois –, eu fui uma das oradoras e nessa ocasião juntamente com outra organização, que é a Casa Aztlán, conseguimos entregar uma carta ao presidente e em público eu pedi se ele poderia trazê-la de volta para se reunir com a família, lá mesmo deu instruções ao secretário de Relações Exteriores para solicitar um visto humanitário, isso foi em junho ou julo, e em setembro a senhora Benítez já estava de volta ao país. Foi um trabalho em equipe muito bem articulado.

A pessoas me veem e dizem é a Elvira Arellano, mas não sou eu, somos muitas pessoas envolvidas, eu me coloquei como a valente, como quando dizem quem vai primeiro, quem vai na frente e aí eu me coloco; organizações em nível nacional e internacional estão atrás de mim. Há uma organização de filipinos que se envolvem com outras da América Latina, e eu sou parte disso também. Estou envolvida em outras no México.

Barack Obama

Com a Família Latina Unida começamos a realizar um trabalho muito forte de sensibilização, eu tenho uma foto com Barack Obama quando íamos lutar por licenças de dirigir em Springfield – cabeceira do Estado de Illinois – ele deu seu voto em favor e saiu a saudar nossas famílias, essa vez realizamos uma ‘via crucis’ do migrante, eu ia vestida de Maria, outro companheiro de José, outro de Jesus migrante e assim… ele disse que estava 100 por cento em favor das famílias migrantes, era representante estatal nesse tempo e já trazia aspirações de ser senador, Em que ano foi isso? Em 2003 ou 2004. Vieram as eleições para candidato ao senado e nós como Família Latina Unida registramos famílias para votar, e chegou ao senado e nessa época já estávamos muito fortes na sensibilização, e fomos em busca de congressistas e senadores, e todos contentes em procurar o senador Obama porque era nosso senador e iria nos apoiar, gostávamos tanto dele, e fomos vê-lo, mas quando chegamos um representante seu de sobrenome Sepúlveda – latino para variar, são os piores racistas – foi a pessoa mais despótica, mais desumana, mais desgraçada que possa existir nesse mundo.

Porque não deu importancia em escutar as histórias das famílias e depois foi ter com Obama e disse que nós o havíamos tratado mal, e Obama, em cada oportunidade que tinha, sempre dizia que nós, algumas famílias, em mis de um de seus livros fala de nós, disse que algumas famílias sempre íam ao seu escritório e que éramos desrespeitosos com ele, quando na realidade era esse Sepúlveda que não nos deixava expressar e contada quem sabe que coisas a ele.

Quando entrei no e Obama veio a uma reunião em Humboldt Park – bairro portorriquenho em Chicago –, que votou em favor da criação de um muro na fronteira e que foi atacado pela comunidad latina, pelos líderes latinos, fue aí onde o pressionaram e veio à comunidade para dizer: eu votei, mas quero ter uma boa relação com vocês e foi aí quando disseram que aconteceu isso e isso com seu chefe de pessoal – o dito Sepúlveda – que sempre nos faltou com respeito, Obama pediu desculpas por ele, mas veja só, não cumpriu até hoje.

Sempre e a mesma coisa, sua oratória espectacular que cativa, mas é tudo uma farsa. Claro, nós sempre o apoiamos, a qualquer evento que ele ia sempre participábamos com as famílias porque confiávamos nele.

Como entrou na igreja?

Em março de 2006, chegou para mim a carta de deportação, esperamos para ver se o senador Durbin poderia introduzir outra reforma de lei, mas foi negada, essa propuesta de lei era o que estava detendo minha deportação, ele já estaba irritado porque queria aprovar a proposta de lei dos Sonhadores e nós lhe dizíamos que a reforma migratória era para todos, mas ele dezia que o Dream Act –Ato de Sonho – era como seu bebê, e nós lhe dizíamos: mas nós temos bebês de carne e osso, e se nos deportam, o que vai acontecer com eles. Se irritou e deixou de nos apoiar. Seguramente disse: para que essas famílias deixem de me perturbar vou deixar de apoiar Elvira é foi aí quando me deportaram.

Chegou a carta da imigração para me apresentar no dia 15 de agosto de 2006 aos escritórios de imigração para minha deportação. Falei com meu pastor, já conhecia um pouco do movimento do , fui a Boston conheci un pouquinho, e dizia: e se entro para o covento na da igreja o que aconteceria? E foi quando meu pastor falou com nosso bispo e ele autorizou. Nesse dia 15 de agosto, madrugamos para uma entrevista com El Pistolero – locutor local – em seu programa de rádio e me perguntou o que iria fazer e eu lhe dise que tenho fé em Deus, mas se já vão dar as dez, voltei a dizer, e eu lhe disse que tenho fé que iria ficar no país.

Nos chamou por telefone o meu pastor e nos disse que às dez haveria uma conferência de imprensa na igreja, que fôssemos para lá. Fizemos a conferência e meu pastor me disse, vamos declarar a igreja como para ti. E continua sendo e será pelos séculos dos séculos, há fotografias de Elvira por todos os lados – e é quando tudo explodiu nos meios de comunicação.

E como você se sentia? Por que os meios de comunicação caíram em cima de você, como lidar com tanta luz?

Eu tinha experiência de luta e assim havia dado entrevistas, mas não como aconteceu quando entrei no , toda essa rua – e assinala a saída da igreja – estava cheia de puras caminhonetes com essas antenas de TV, por aqui caminharam – e assinala o corredor da igrela – todos os famosos da Univisión, Telemundo, de todos os noticiarios, até em inglês. Sim, recordo, era o tema do dia a día até de nós que limpávamos casas, no supermercado, no posto de gasolina, com as mesmas babás te tirávamos para bailar a cada momento.

O que passa por tua cabeça quando falam de você?

Creio que foi um tempo de preparação quando estive no porque havia possibilidade de que eu pudesse ficar, mas sempre confiando em que algo pudesse acontecer, para mim esse algo era como um milagre.

Há 10 anos eu já vivia aqui quando me deportaram.Como foi o impacto disso? Dei graças a Deus por ter me permitido ser parte dessa luta, quando a imigração me deteve e me levaram presa, a única que eu temia era que fossem me agredir ou fazer outra coisa comigo, mas não ocorreu nada. Ia pensando que não iria para um lugar que não fosse o meu país. Ia ser bem difícil começar de zero. Cheguei em casa e meus pais me receberam alegres e eu feliz de ver os dois. Recebi convites de organizações para participar de algumas actividades, sou co-fundadora do Movimento Migrante Meso-Americano, a presidenta Marta Sánchez Soler é minha amiga. E com ‘Las Patronas’? Sim, claro as conheci quando não eram “Las Patronas”, quer dizer, quando não eram conhecidas como são agora.

Soube que falaste com o presidente Felipe Calderón.

Me buscaram da Secretaria de Relações Exteriores, queriam explicar-me que tinham feito o que estava ao seu alcance para proteger meus direitos, até onde a lei permitiu. Porque me entrevistaram e me preguntaram o que havia feito o governo mexicano no meu caso e eu respondia com a verdade: nada. Até na minha casa chegou uma pessoa da Secretaria de Relações Exteriores para levar-me uma carta com a desculpa e explicação. Voltaram a me chamar por telefone para dizer que queriam me ver pessoalmente, disseram que eles arcariam com os custos. A senadora Rosario Ibarra de Piedra é uma das mães do Movimento de 68 e o deputado José Jáques y Medina a conhecia muito bem, iam fazer o aniversário e fui à manifestação que organizaram – Matança na Praça das Três Culturas, de Tlatelolco – pois eles me disseram que a cada vez que fosse a reuniões com gente do governo mexicano não fosse sozinha porque eles tergiversam tudo e colocam a seu favor. A reunião, que era nos escritórios da Secretaria de Relações Exteriores, mudaram para Los Pinos, e me emocionei não porque veria o presidente, mas porque conheceria Los Pinos, onde tantas decisões importantes são tomadas. Eu, Elvira Arellano, uma cidadã qualquer em Los pinos? Era algo inimaginável para mim, nunca pensei que iria acontecer algo assim na minha vida.

Toda as pessoas que eu tinha ao redor nesse momento erm anti-Felipe Calderón, porque fraudou as urnas, não estava nem aí para o voto popular. Entrei em conflito porque pensei: se vou serei odiada pelos Obradoristas, mas do contrário decepcionarei as pessoas que colocaram suas esperanças em mim – os milhares de não documentados nos Estados Unidos – então decidi ir e levar a mensagem ao presidente. Advirteram-me que a reunião duraria três minutos – foi inevitável eu rir e ela também ri, três minutos? – e eu disse: está bom, são eles que estão me chamando, eu não estou indo bater na porta deles. Marta Soler, esposa de Pepe Jáques y Medina me acompanhou – a presidenta do Movimento Migrante Meso-Americano – chegamos pois e chegou um dos soldadinhos do Estado Mayor Presidencial e me disse que o presidente só atendería a mim, eu disse que sozinha não iria, ou atende as duass ou não entro. Vai e diz ao presidente, ele se retirou e deixou entrar as duas.

A reunião levou mais de meia hora e quem falou foi eu, já imaginas as fotos por todos os lados, o midiático…, disse a ele que não tinha ido só pelo meu caso, mas por todos esses milhares de mexicanos que se viam obrigados, mães, crianças e adolescentes, gente trabalhadora, porque eles como Estado não lhes garante seus direitos humanos; um trabalho digno, escola, alimentação, segurança. O que ele disse: pois nós ligamos para os Estados Unidos e nem as llamadas atendem. Me perguntou o que eu necessitava, me ofereceu uma bolsa para meu filho por parte do Instituto de Mexicanos no Exterior e eu ri, e me perguntou por que ris e eu lhe disse, mas é que quem é o IME – Instituto de Mexicanos no Estrangeiro – gente que me criticou, me satanizou, alguns poucos me defenderam somente, mas o resto até juntaram cartas e petições para que o governo mexicano não me desse ajuda. Pois lhe disse que não estava ali para pedir algo pessoal, mas pelos milhares, para que haja justiça para todos, se quisessem me ajudar realmente me desse uma nomeação como Embaixadora de Paz, Justiça e Esperança para os Migrantes, me disse que iriam avaliar, certamente nunca me chamaram. Sabiam que eu era anti Felipe Calderón,como deve ser em relação a Peña Nieto, imagino. Nem mencione ese nome! Para mim, ele é um assassino, é uma pessoa que pactuou com o narcotráfico para chegar à Presidência, é um presidente narco, assassino, inútil, destruiu cada vez mais nosso país, não temos paz nem justiça, o mergulhou na violência.

Como foi a questão do retorno aos Estados Unidos?

Porque uma organização decidiu falar com várias famílias para cruzar a frontera, foi aí quando eu decidi apoiar algumas famílias que são do meu povo e vim até a fronteira para averiguar o processo para entrar; estando na fronteira muitas famílias me preguntaram por que eu não entrava e lhes expliquei, porque as autoridades estadunidenses quando me deportaram me deram um castigo de 20 anos e eu já levava sete, faltavam 13, e esses sete anos dediquei à defesa dos direitos humanos dos migrantes. Realmente, não tinha nos meus planos cruzar porque havia decidido viver com meu companheiro, o pai de Emiliano.

Somos interrompidas por uma chamada telefônica, ela me explica que é para os detalhes de sua viagem à universidade de Harvard, já que na última semana de outubro será a oradora principal de uma atividade realizada na universidade por parte do Programa de Estudos Latino-Americanos. Por esses dias completará um ano seu filho mais novo, que melhor celebração há do que ver sua mãe como oradora em Harvard.

A Obama perguntavam os jornalistas e os líderes comunitários por que não me havia ajudado quando era senador e dizia que não estava em suas mãos. Então, minha mensagem antes de cruzar foi lhe dizer que agora sim, estava em suas mãos ajudar-me, agora me deportará outra vez? Não sou nenhuma criminosa. Ainda que os racistas me comparem con assassinos e delinquentes, mas sou apenas uma mãe como os milhões que vêm para este país trabalhar.

Não foi uma decisão fácil cruzar e quero que entendam porque as pessoas dizem “por que ela sim e eu não”, mas eu não fiquei de braços cruzados, lutei aqui e no México quando me deportaram.

Eu estou segura de que Obama não dará a reforma migratória, mas quero saber qual a sua opinião?

Pois não, não a dará, mas podemos exigir e a forma de fazer isso é lançando um candidato independente à Presidência e nós queremos e já estamos juntando assinaturas e realizando todos os protocolos para lançar o congressista Luis Gutiérrez – Elvira tem razão, é ele o único que tem estado firme dia e noite na luta pelos migrantes não documentados – demos até 27 de novembro de limite ao presidente Obama para que se pronuncie em favor da reforma migratória, esse dia é o de Ação de Graças. Tanto democratas como republicanos são culpados dessa demora e que centenas morram no deserto, rio Bravo ou na rota do México para vir para este país, e eles são os culpados pelas deportações massivas e por separar famílias. Pois nós vamos lançar um candidato indepeniente que cumpra isso. Nem voto para os democratas nem para os republicanos, já é tempo de ter um presidente latino que nos represente e nos respeite.

Elvira Arellano atualmente, não pode trabalhar porque seu caso ainda está sem resolução, se sustenta vendendo roupa de segunda mão que pessoas da igreja e da comunidade doam, vende lá mesmo no plantel da igreja, abre a porta com a mesma esperança com a qual uma vendedora benze sua mercadoria esperando que a jornada dê pelo menos para o feijão. Assim se formam as grandes, a adversidade as tornam invencíveis.

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=82949

Sobre SPM - Serviço Pastoral dos Migrantes

O Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) é uma Pastoral Social, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1985, que promove os direitos humanos, sociais, econômicos, políticos e culturais dos migrantes e imigrantes e comunidades de origem, trânsito e destino.
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