Gritos de gente que a gente não vê

qua, 2012-09-05 17:55 — Michelle

José Carlos Alves Pereira

“Vi na TV que em Florianópolois (SC) estão contratando pedreiros de “luxo”. Salário de R$ 5 mil, mais casa, alimentação e lazer. É por isso que estou indo. Eu estava ganhando muito pouco na Paraíba e sem poder tocar lavoura. Não pensei duas vezes. Pobre não tem escolha”. A frase é de Sérgio, 25 anos, 1º grau de escolaridade incompleto, com quem viajei num ônibus, do Vale do Jequitinhonha (MG) até São Paulo, com destino final Florianópolis. Cidade esta a que Sérgio nunca tinha ido e também não sabia qual empresa de ônibus fazia o transporte para lá. Além disso, não havia pessoa alguma o esperando. Atendera ao chamado do anúncio da TV que dizia haver tratamento de ‘luxo’ para pedreiros que fossem trabalhar lá.

A atitude de Sérgio é como um Grito de milhares de trabalhadores subempregados ou desempregados que se sujeitam a trabalhos de qualquer espécie para sobreviver em um Brasil que acaba de se tornar a “5ª maior economia do mundo”. Este grito simbólico nos ajuda a constatar diversos outros gritos que as classes ricas e poderosas escondem ou espetacularizam em seus grandes canais de comunicação; gritos que os governos procuram sufocar.

Como Sérgio, milhares de trabalhadores buscam melhorar a condição de vida. Seus deslocamentos são impulsionados pela falta de meios básicos de sobrevivência, como água potável, trabalho, moradia e acesso à saúde, etc. Quantos milhares de Sérgios não têm acesso à trabalho decente e à saúde na 5ª maior economia do mundo?

Também vale lembrar que seus deslocamentos ocorrem e são impulsionados no bojo da mundialização do capital, da transnacionalização de empresas, da financeirização, autonomização da produção, cujo caráter principal é a desregulamentação da política, da economia, a informalidade do trabalho, e, o esgarçamento da cidadania e da democracia. O que significa, na prática, perda de direitos e tratamento policial no lugar de políticas públicas adequadas à solução de problemas sociais graves. Veja-se o caso das diversas greves de trabalhadores nos canteiros de obras da Copa 2014 e do Rio Madeira para a construção de barragens.

Não é fácil encontrar trabalho decente e garantias de acesso a direitos. Do ponto de vista da razão pura, os trabalhadores não lograrão alcançar a tão sonhada melhor condição de vida. Do ponto de vista da capacidade de invenção humana, da resistência e esperança, se não uma radical transformação social, ao menos uma mudança na própria condição pessoal se vislumbra como miragem ou sonho possível em seu horizonte.

Não seria o caso de nos perguntarmos sobre uma cidadania orientada não pela ação policial, mas, pelos valores da pessoa humana e as potencialidades da democracia como distribuição social de riquezas e direitos à toda população? Afinal, para que serve o Estado? Para promover violência e desigualdades ou para proteger e promover a justiça social?

Dias depois, em outra viagem de ônibus – esta mais curta – do Terminal Sacomã até o Jardim Patente, em São Paulo (SP) conheci dona Eloisa, 51 anos, cearense do Crato. Ela tinha rosto sofrido, mas brilho, alívio e sorriso no olhar. Durante 20 anos dormira sob papelão em um barraco às margens do córrego Tamanduateí. Mas, há cinco anos, foi à luta com o movimento dos sem-teto. Enfrentou a violência do Estado policial e o preconceito. Há dois dias, ela conseguiu uma casa popular. Muito contente, carregava umas sacolas e disse-me que voltava do centro da cidade, onde fora comprar um colchãozinho inflável. Depois de 25 anos, finalmente ia poder voltar a dormir em um colchão. Mais um Grito por moradia abafado durante um quarto de século. Mas que resistiu, sonhou, lutou e junto com muitos outros gritos alcançou seu grão de cidadania, uma morada. Quantos milhares de famílias dormem em barracos de madeiras às margens de esgotos e lixões na 5ª maior economia do mundo?

Outro Grito veio de um imigrante boliviano, José Jamil, que trabalhou como escravo em oficinas de costura, em São Paulo (SP). Resgatado, Jamil disse não “ter para onde ir”. Não havia outra alternativa senão permanecer alvo das empresas transnacionais e suas fornecedoras que lhes supre de mercadorias baratas às custas do trabalho mal pago ou escravo de muitos imigrantes. Quantos imigrantes trabalham como escravos, sem moradia, sem escola, sem acesso à cidadania na 5ª maior economia do mundo?

Em um dos bancos do terminal urbano Ana Rosa, enquanto eu esperava o ônibus, conheci o Marcelo. Jovem de 25 anos, morador de rua. Pediu um lanche e perguntou-me se eu sabia onde fi cava uma Igreja ali perto que oferecia banho e café da manhã para moradores de rua. Enquanto comia o lanche, Marcelo dizia que já fora pessoa trabalhadora com seu pai e sua mãe em um sítio em Nova Venécia (ES). Mas um fazendeiro tomou-lhes a terra e plantou eucalipto em tudo. O pai falecera dias depois. A mãe fora para um asilo. A ele, restou “sair de mund’afora”. Perguntei-lhe sobre o fato do prefeito Gilberto Kassab colocar a guarda civil metropolitana no encalço dos moradores de rua e proibir a distribuição da sopa a eles pelas organizações de solidariedade. Marcelo olhou-me fixamente, tomou uma cachaça que trazia na mochila e disse-me: “Já fui escorraçado várias vezes por esses guardas, apanhei deles inclusive. Mas não tenho para onde ir a não ser mudar de rua em rua…”. Quantos milhares de camponeses são expulsos da terra para trabalhar duro no eito dos canaviais, nos canteiros das grandes obras, para trabalhar como escravos na construção civil e nos monocultivos produzindo riquezas para um seleto grupo de pessoas, ou, para morar nas ruas na 5ª maior economia do mundo?

Outro dia, encontrei Dona Eva pelas estradas empoeiradas do Vale do Jequitinhonha (MG). Ela mora em uma comunidade quilombola sem acesso a água potável. Tem três fi lhos, um deles trabalhador migrante cortador de cana. Todos os dias, de manhã e à tarde, dona Eva precisa caminhar seis quilômetros caatinga adentro para ir buscar água em uma represa que a Ruralminas fez para irrigar monocultivos de banana. Quantos milhares de famílias não tem acesso à água potável na 5ª maior economia do mundo?

Semana passada, encontrei-me com Dona Francisca e o Mestre Magrão. Ela falou-me sobre um grupo de mulheres que luta bravamente para sobreviver no Jardim Rincão, periferia de São Paulo. Ali, além das tarefas domésticas, elas elaboram costuras e artesanatos para tentar complementar a parca renda familiar. Como diria Sidnei Silva, “costuram sonhos” de viver com dignidade humana em suas famílias, em suas comunidades. Tarefa nada fácil. Pois lhes faltam espaços e apoios de governos e outras instituições sociais que deveriam promover a solidariedade e o bem estar comunitário. Já o Mestre Magrão falou-me do trabalho de capoeira e de formação que ele faz com crianças, adolescentes e jovens na mesma periferia do Jardim Rincão. Com sua arte, procura colaborar para que meninos e meninas não encontrem na violência, nas drogas e prostituição, sua única alternativa de vida. Contudo, quantas Donas Franciscas e Mestres Magrões lutam sem o reconhecimento e apoio do poder público neste importante trabalho sociocultural na 5ª maior economia do mundo?

Na 5ª maior economia do mundo, o Estado e os governos locais ignoram, de propósito, Sérgios, Eloisas, Josés, Marcelos, Evas, Franciscas, Magrões. Não ouvem seus gritos por direitos básicos de cidadania. Ao contrário, os reprimem com a violência organizada, institucionalizada. A quem e como serve o Estado na 5ª maior economia do mundo? Serve à reprodução do sistema de desigualdades imposto pelo neoliberalismo.

O 18º Grito dos Excluídos questiona esse sistema, por um lado, e, por outro, busca potencializar os Gritos da gente que a gente não vê, não ouve, não reconhece. Procura, através das lutas, sonhos, esperanças, mostrar que há possibilidades e alternativas populares de se construir um país melhor, no qual o Estado garanta direitos a toda população, onde o ‘luxo’ não seja exceção ilusionista de TV, e, nem favor de empresas e governos.

Assim, o 7 de Setembro é mais que um dia da Pátria. Mais que um momento, que um evento. Faz parte de um processo de lutas por dignidade, cidadania e soberania popular. Se os direitos de cidadania e os valores democráticos forem garantidos aos trabalhadores, esta já é a essência do gozo – e não luxo – da nossa condição humana e do convívio em uma sociedade, onde o Estado esteja de fato a serviço da nação garantindo direitos a toda a população!

José Carlos Alves Pereira é sociólogo do Serviço Pastoral dos Migrantes.

http://www.brasildefato.com.br/node/10524

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Sobre SPM - Serviço Pastoral dos Migrantes

O Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) é uma Pastoral Social, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1985, que promove os direitos humanos, sociais, econômicos, políticos e culturais dos migrantes e imigrantes e comunidades de origem, trânsito e destino.
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