‘Integrar as pessoas da cidade coíbe a violência’, diz arquiteto

                                                                      (setor urbanos)
04/06/2012 – 02h27

EVANDRO SPINELLI
DE SÃO PAULO

(Entrevista com José Armênio de Brito Cruz, presidente do departamento paulista do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil)

FOLHA – Qual é a cidade que estamos construindo? Nessa “nova cidade” tem arquitetura?
JOSÉ ARMÊNIO DE BRITO CRUZ – O importante nessa questão da construção da cidade é a população compreender que a cidade é fruto dela própria, da população mesmo. A população não é vítima da cidade. A sociedade não é vítima da construção que faz do espaço que ela habita. A cidade é fruto, justamente, dessa correlação de forças da sociedade, dessa ação da sociedade, dos desejos da sociedade, dos desígnios que a sociedade coloca para esse espaço. E a arquitetura é o instrumento para que a sociedade possa definir as direções que essa cidade vai tomar. O arquiteto tem esses instrumentos, essa técnica.

Que tipo de técnica, por exemplo?
Por exemplo, entender o que significa como fortalecer o comércio de rua. Saber que o foco de um imenso shopping center vai, no área circunvizinha considerável, enfraquecer este comércio de rua.

Houve um tempo em que todo mundo queria shopping.
Todo mundo querer os shoppings… Um shopping center, como espaço de mercado, pode ser uma coisa positiva. Nós temos histórias de mercados lindos, como o mercado de São Paulo, Porto Alegre tem um mercado muito bonito. São os espaços do comércio. Mas na hora que o shopping center começa a chegar no mercado como uma esponja e suga a força comercial da circunvizinhança, isso tem de ser uma decisão da sociedade.

A sociedade tem de ter consciência do que está fazendo. As coisas não são ruins ou boas a princípio. Tem de ser uma decisão da sociedade. A sociedade tem de saber quais as consequências dessa tomada de decisão, para não ficar com áreas deterioradas, não ficar com áreas em desuso, porque isso é um custo para a sociedade e começa a gerar vícios no uso do espaço.

Também houve um tempo em que condomínios fechados eram moda, e agora há uma discussão de que isso deve voltar a se integrar a sociedade.
Essas afirmações que você diz, da moda, vamos entender isso enquanto afirmações de direções. O condomínio fechado é uma privatização do espaço. Aqui, só entra quem é dono. Isso, para a cidade, não é bom, porque a partir do momento em que você diz que aqui só entra quem é dono você está dizendo que milhões de pessoas estão ficando fora.

Talvez, esse milhão de pessoas não fique muito contente de ficar fora daquele espaço. Existem teses na USP que já evidenciaram que, ao mesmo tempo em que cresceram os condomínios fechados, a violência também cresceu. A segregação, tecnicamente, é um elemento que aumenta a violência. Seja a segregação do rico no condomínio fechado, seja a reprodução disso nas camadas mais pobres, a integração é contra a violência.

Mas não é essa cidade que a gente está construindo, dos shoppings centers e dos condomínios fechados?
Tenho que concordar com você. Infelizmente é, porque é uma atitude não nacional. É como se esse nosso espaço, o nosso território, não fosse da nossa população. Na hora que nós assumirmos esse território como da nossa população, o jogo vai começar a acontecer de forma mais justa, de forma mais clara, e a violência tende a diminuir. Na hora que os espaços públicos estiverem qualificados e devidamente ocupados pela população… Nós fizemos aqui na nossa possa uma festa. 1.500 pessoas aqui na esquina, nessa região que é tida como o centro, o pessoal fala aí… Nem um problema. Começamos às quatro horas da tarde, terminamos pontualmente às 22 horas, 1.500 pessoas, três bandas de rock tocando, os bares todos abertos, servindo, acabou todo o estoque de cerveja da região, nem um problema. O que eu quero dizer?

Essa exposição, essa disposição em qualificar a cidade, na verdade, é a disposição de ver que nós somos uma sociedade que tem diferenças. Diferenças econômicas, diferenças culturais, mas que pode conviver. Essa é a nossa convicção, que a arquitetura se insere na sociedade dessa forma. Esses vícios do condomínio fechado, da segregação, são vícios que nunca foram definidos pelos arquitetos. Talvez alguns projetos sejam feitos, mas os arquitetos, aqui no instituto de arquitetos, nunca defenderam essa segregação.

Essa discussão surge no momento em que estamos num período eleitoral e que o plano diretor de São Paulo completa dez anos e precisa ser refeito. É o momento da “virada”?
O instituto de arquitetos vai participar ativamente das eleições municipais aqui de São Paulo. Inclusive, já procurei o presidente da Câmara dos Vereadores e nós vamos fazer um debate lá na Câmara pautado pelo instituto de arquitetos para ver qual a proposta dos candidatos para a cidade de São Paulo. Essas discussões que começamos a nomear aqui, da segregação, da violência urbana, dos modelos de crescimento da cidade, que modelo a sociedade vai tomar pra si como modelo de cidade vai ser pautado nesse debate. É fundamental esse momento, é muito importante esse momento, porque a partir do momento em que os prefeitos coloquem essas questões eles vão tomar compromissos para a execução dos próximos quatro anos.

O plano diretor teoricamente estaria em reavaliação agora em 2012, mas o mais importante é ver, no plano diretor aprovado, quais as conquistas que nós já tivemos nesse plano diretor? Para que lado a gente pode aprimorar esse plano diretor? O projeto tem que entrar em pauta. Quando a arquitetura entra em pauta, muitas vezes ela evita discussões e conflitos às vezes judiciais, que são as formas da sociedade discutir os seus destinos. Às vezes um projeto pode resolver um conflito antes de ele entrar na Justiça.

Por exemplo?
Tem aquele caso do Pinheirinho, que chegou na Justiça, se a arquitetura tivesse entrado em pauta o projeto mostraria que é viável, sim, a comunidade que estava lá, permanecer lá, e aquilo ser um pedaço de cidade saudável, inclusive com exploração imobiliária, com a população de lá, e efetivamente virando cidade, como qualquer cidade do mundo que não segrega. A atitude que nós não achamos saudável é aquilo virar um espaço segregado, de uso unicamente para um setor.

A cidade é mais saudável quanto mais misturada ela está, seja do ponto de vista de classe social, seja do ponto de vista de uso, seja do ponto de vista cultural. Isso é o que a gente defende. Quando a arquitetura entra em pauta, no projeto você vê: olha, dá pra conviver. Cidades do mundo, você tem vários exemplos, no Canadá você tem alguns, na China também, você vai fazer um empreendimento imobiliário, você é obrigado a fazer uma parcela do seu empreendimento ligado à habitação social. Perto do seu empreendimento, não é pra longe, a 150 metros.

E é viável estabelecer isso como regra em São Paulo? É preciso mudar plano diretor, zoneamento, código de obras…
Plenamente viável. É a disposição da sociedade enfrentando suas questões. Eu conto sempre uma história. Quando eu era pequeno eu morava perto de uma favela. Na favela moravam as pessoas que faziam pequenos serviços na casa. Minha mãe mandava eu ir lá pedir para o fulano vir aqui arrumar a torneira. Eu entrava na favela, falava com ele, deixava a casa aberta para ele vir a hora que ele quisesse. Por quê? Porque as pessoas tinham endereço, eu sabia onde ele morava. Não era numa casa igual à minha, era numa favela, mas ele era uma pessoa como eu, e a minha casa estava aberta a ele. A segregação, quando as pessoas passam a não ter endereço, quando elas passam a viver separadas, aí que gera a violência.

O sr. defende que as pessoas se integrem. Mas as casas vão poder ficar abertas?
Aí é um sonho… Isso eu não acho possível, mas seria bom.

O sr. acredita que, se as pessoas se integrarem, vai reduzir a violência?
No espaço urbano, com certeza. A Virada Cultural é um evento só de um em um ano. Nem um problema. A população de São Paulo já mostrou que sabe fazer isso. O Copan, por exemplo, tem apartamento de 26 m² e tem apartamento de 220 m². Ninguém se estapeia no corredor. As pessoas se cruzam. Acontece que, naquele momento da vida, um está morando num apartamento menor e o outro está morando num apartamento maior. E não pode isso na rua? Por que não pode ter aqui um prédio pequeno e aqui um prédio maior? Ou uma casa maior e uma casa menor? Aí você começa a pensar que as tipologias têm muito mais a ver com a evolução demográfica do povo, com a questão cultural. O que é a família brasileira? É a mesma coisa do que era a família brasileira 30 anos atrás?

Essa integração, por exemplo, não é o que está se propondo como modelo no projeto da Nova Luz?
A Nova Luz é um recorte urbano que entrou, por uma série de razões, em desuso e uma população que não estava atendida, que não tinha lugar, acabou tomando conta daquilo ali. Que é população também. Apesar de serem viciados, também fazem parte do Brasil. A questão ali se tornou uma coisa de saúde pública, social, além de arquitetônica. O projeto que está sendo apresentado procura colocar, eu não sei ao certo a característica das unidades, mas o objetivo que eu sei da intervenção ali é transformar aquilo num tecido urbano vivo, para que a população possa, como um todo, usar aquilo, nem só um lado, nem só o outro lado.

 

Karime Xavier/Folhapress

 
 

José Armênio de Brito Cruz, na sede do IAB-SP

Tem problemas no projeto?
Eu não conheço o projeto vencedor. Eu sei que teve um problema de implantação do projeto, os comerciantes sentiram que não participaram das decisões, e isso é importante saber e ver. A sociedade brasileira agora é democrática, existem instrumentos para falar. Projetos devem ser construídos com a população. A técnica é do profissional, do arquiteto, mas a demanda é da sociedade. Então, cabe ao arquiteto organizar essa demanda da melhor maneira, inclusive se ver algum vício na demanda, se vir algum problema, discutir com a sociedade essas questões, e discutir abertamente. Eu sei que teve ali problema de aceitação dos comerciantes, que devem ser ouvidos, porque estão fazendo sua vida lá. Mas acho que é uma questão que deve ser resolvida logo. Se o projeto entra na mesa para ser discutido, a sociedade resolve.

Como fazer essa discussão sem que parte da sociedade seja apenas massa de manobra e não agente atuante de verdade?
A gente tem no Brasil talvez um descrédito com relação às instituições. Existem instituições para a gente discutir isso. Os conselhos da prefeitura, a própria Câmara dos Vereadores, e eu defendo que, pelas instituições, a sociedade discuta. Existem diversos conselhos, de legislação, de patrimônio, de habitação, dentro da Prefeitura de São Paulo. E através desses conselhos, dessa participação, da sociedade civil organizada, você participa lá e pode colocar.

A gente tem de começar a acreditar nessas instituições e aí pode-se transformar a cidade. Uma lei desenha a cidade, sim. Os arquitetos podem instrumentar a sociedade para suas análises, e nas suas análises propor direções, essa ou aquela, para a organização da cidade. Porque a cidade é uma obra em constante transformação, e é uma obra coletiva, não é obra de arquiteto só.

No debate do novo plano diretor, quais são os pontos principais?
O pano de fundo para a discussão eu acredito que seja nós rompermos essa cisão que existe no território brasileiro. Temos que começar a entender o nosso território como um território nacional, ainda que aqui dentro da cidade, ele é de toda a população. A gente tem de parar de dividir, uns aqui, outros ali.

Acabar com a divisão entre bairro nobre e bairro pobre?
Talvez sempre exista um bairro mais valorizado e outro menos valorizado, isso não é problema, mas integração entre isso é fundamental. A criação de vizinhanças. Tem de parar de existir divisão entre lugar onde tem emprego e lugar onde não tem emprego. Cidade dormitório e cidade escritório. Esse tipo de cisão, condomínio fechado, parar, isso não é modelo de desenvolvimento. Podem continuar a fazer, não é problema nenhum, mas não é modelo de desenvolvimento, não deve ser encampado enquanto política da cidade. Quer fazer um condomínio, faça, não tem problema nenhum. Ninguém aqui tá querendo ou tem direito de proibir alguma coisa, mas nós estamos discutindo as políticas públicas.

O que o sr. está dizendo é que lei deve prever a possibilidade de condomínios fechados, mas deve induzir outro tipo de política de desenvolvimento?
É. Deve induzir um território integrado. Daí nós vamos chegar em qualificação do espaço público e potencialização da infraestrutura existente.

Isso tudo é investimento público prioritariamente.
Pode ser feito em conjunto com a iniciativa privada. É investimento da sociedade. O governo investe muito na cidade, muito, mas a questão é saber como investir. É a questão que estamos discutindo. Qualificação do espaço público. Mobilidade na cidade é fundamental na democracia, você poder andar para onde quiser o mais facilmente possível. A questão da habitação. Nós temos um deficit habitacional enorme, de milhões de pessoas, o que gera subnormalidade, o que gera favela, porque as pessoas têm direito à cidade. Isso está previsto em lei, a Constituição prevê que o Estado deve prover moradia às pessoas. E essa moradia é a cidade. Nossa casa é a cidade, não é só o nosso quartinho fechado. A gente sai, está na rua. E o pano de fundo é a integração disso tudo.

Na integração das políticas públicas você deve saber que aquele investimento que você está fazendo em transporte está ligado àquele investimento que você está fazendo em habitação, ou com aquele investimento que você está fazendo de qualificação do espaço público. Essa é uma qualidade da arquitetura, que é a dimensão íntegra da realização. Você não faz um prédio sem saber que atrás dele tem sombra. Você não faz um prédio sem saber como você está chegando e como você está saindo desse prédio.

Hoje, na cidade, você até sabe como chega e sai do prédio, mas não está integrado às ruas do entorno.
Às calçadas. Por exemplo, temos as estações de metrô. O metrô que a gente já tem é pouco, mas as estações são muito boas. Mas e as calçadas para chegar lá? O primeiro elemento do transporte público é o pé. Você tem de chegar a pé no metrô. Como é a calçada para você chegar e sair de lá para ir ao trabalho? A busca dessa distribuição um pouco mais igualitária da distribuição de renda no território. Tudo isso tem instrumentos técnicos que podem ser feitos e podem ser transformados em políticas públicas rompendo a visão de que nós somos vítimas da cidade.

Não, a cidade é fruto da nossa vontade, é fruto da nossa população, do que nós queremos, enquanto população, daquele espaço. Mais emprego aqui, mais habitação acolá, mais espaço público aqui, existem lugares da cidade que precisam de recuperação ambiental, existem lugares que precisam de emprego, existem lugares que têm demanda habitacional. Existem mapas quantificando essa questão e o arquiteto pode contribuir muito para isso com seu conhecimento. Dentro das escolas existe muita discussão, dentro dos escritórios, da assessoria que os arquitetos fazem à população. A própria população, quando começa a ter esses instrumentos, sabe o que quer.

O sr. falou de algumas diretrizes que estão até no atual plano diretor, como incentivo aos entornos das estações de trem e metrô. Mas, aparentemente, isso não atingiu o objetivo.
Faltam ferramentas. O Estado está tentando. Por exemplo, o centro consolidado de São Paulo. Nas últimas três décadas houve uma evasão de 300 mil pessoas. Nos últimos dez anos voltaram 20 mil. Ainda é pouco para a evasão das últimas três décadas. Há que se fazer políticas não de investimentos pontuais, mas como uma política de decisão: eu vou ocupar essa região. Se você pensar na transformação dos imóveis daqui do centro, poderia chegar a 600 mil pessoas tranquilamente. Isso transformado em política pública como quem vê uma realidade e vai transformar aquela realidade. O que eu quero dizer?

Nós assistimos a transformações. A cidade decide crescer para um lado ou para o outro. Você vê a transformação, quanto a cidade nos últimos 20 anos cresceu. A partir de 1970 ela começou a tomar essa escala. A política pública é uma decisão de pra que lado você vai colocar esse crescimento, e aí você pode aumentar a segregação ou diminuir a segregação. Você potencializar os seus investimentos públicos ou você fragmentar. É muito mais caro você levar a rede de infraestrutura lá para longe onde a cidade está crescendo do que você gerar uma política de ocupação aqui pelo centro consolidado.

Como eu faço uma política de ocupação do centro e impedir que as pessoas continuem a ir morar em condomínios fora da cidade de São Paulo?
Qualificando esse centro, colocando unidades de habitação viáveis. Os prédios ficam vazios. A partir do momento que isso pode virar um conjunto de unidades habitacionais, pode até ter subsídio do governo pra morar aqui porque ainda é mais barato do que levar a infraestrutura pra lá. Esse crescimento, isso já foi colocado por urbanistas do mundo, existe um limite de densidade urbana onde a economia urbana começa a ser viável. Aquém desse limite, a conta não fecha.

A conta do custo do metrô não fecha, a conta do custo do transporte público de qualidade não fecha, a conta da qualificação do espaço público não fecha porque a conta do comércio não fecha, então você precisa ter uma certa densidade para as coisas começarem a acontecer. E isso é técnica, que mistura arquitetura, economia, sociologia, e a arquitetura está se colocando enquanto uma área de conhecimento para estar junto na mesa discutindo com os administradores e propondo, porque no final a coisa se materializa.

O centro de São Paulo precisa de subsídio?
Depende da faixa de renda da unidade habitacional. Existem faixas de renda que precisam de subsídio, sim. Existem faixas de renda que o financiamento com juros baixos já resolve. E existem faixas de renda que não precisam de subsídio.

E tem demanda mesmo para faixas de renda de classes média alta e classe alta?
É só ver, procura um apartamento para alugar no Copan e vê se você acha, 220 m², e o preço já subiu. Porque há demanda. A nossa classe média já percebeu que a vida aqui é muito mais barata e muito mais interessante que a vida lá longe.

A nova classe média está indo morar no ABC em busca de preços mais baixos de imóveis.
Porque não está vendo solução de moradia aqui. Vai continuar existindo Santo André, São Bernardo. É outra questão, vai ter outra questão de qualificação. Não estamos falando só da cidade de São Paulo, estamos falando sobre cidades. Tem que ter a cidade menor, a comunidade menor, sempre vai ter, mas o raciocínio e o conhecimento sobre cada espaço tem de ser íntegro. Você não pode expulsar uma população, demorar quatro horas pra chegar pra trabalhar depois levar mais quatro horas pra ir embora. Isso não é vida. A qualidade de vida é justamente você ter direito ao lazer, ter direito ao descanso, voltar pra casa pra almoçar. Essa é a qualidade de vida. E a cidade permite isso.

Também está se discutindo muito o processo de aprovação de projetos, a burocracia, exigências de patrimônio histórico e compensações ambientais. Isso não tem ajudado a emperrar o crescimento da cidade de São Paulo?
A questão da aprovação não está emperrando, mas está desqualificando o crescimento da cidade. Nós aqui no instituto, nossa posição é que a construção da democracia na cidade demanda a transparência das informações. Quanto mais as informações estiverem abertas, melhor. Vai construir um prédio ali. Você que é vizinho, você deve ter direito a opinar sobre esse prédio, porque você vai ser afetado por esse prédio, seja pela sombra do prédio, seja pelo barulho se ele for uma boate. Então, você direito de falar. Isso é a consolidação da democracia na cidade. Agora, o ponto de partida disso é a democratização e a transparência das informações. Esse capítulo resolvido, uma série de vícios acabam. Porque a sociedade já estará sabendo o que se está discutindo.

Daí, é importante a gente dizer que a discussão não pretere da contribuição técnica. O técnico sabe, sim, como resolver a questão, domínio esse que não é de todo mundo. E ele tem de apresentar essa solução técnica para discussão da população. Às vezes, a discussão de uma sombra pode ser resolvida tecnicamente: afasta pra cá, desenha pra lá, não tem mais sombra. Às vezes uma questão de barulho possa ser resolvida tecnicamente e não necessariamente coercitivamente. Então, a contribuição técnica é importantíssima, e o instituto levanta essa contribuição e a responsabilidade dessa contribuição técnica inclusive.

Na questão de aprovação de plantas, a gente defende que a transparência é o ponto de partida para isso. E isso está alinhado a políticas públicas. O ônus da aprovação de um projeto que tem interesse público deve contar também com o empenho do poder público na sua aprovação, porque aquilo está dentro de uma política pública, de uma direção de determinada política. Então, a integração de direções e a transparência das informações é uma questão. A gente tem que saber, tem que discutir pontos ambientais, é positivo ter que discutir isso. Isso não é empecilho para a implantação de nenhum empreendimento. Fizemos metrô, praças, escolas, bibliotecas e não impediu nada. A gente tem que começar a ver que a questão do tombamento, por exemplo, não vai resolver tudo.

O tombamento protege e diz “olha, ali tem um bem que é importante ser preservado”. O segundo capítulo, como que vai preservar aquilo? Na política de tombamento, se você fala que tem que preservar você tem que dar a solução de como preservar. Ainda não estamos aí. O tombamento chega até a uma atitude de reação, queremos proteger, mas não tem uma atitude proativa ainda, porque não tem instrumentos para isso. Isso não é falha de nenhum colega, mas é sim um segundo capítulo da política de tombamento, o fomento daquele tombamento, a proatividade no uso daquele bem tombado, que é a única forma daquele bem tombado ser preservado, porque se não for usado ele vai degradar.

Mas é justo que um projeto leve dois, três, quatro anos para ser aprovado?
Não é justo. A competência tem que estar nos órgãos público. Isso é contraproducente para a cidade. Tem de ser sim, ou não, ou como, ao projeto. Ficar sem resposta não é positivo. Não é positivo mesmo. Isso atrasa investimento, os investidores não têm tempo para ficar esperando. Agora, isso não significa não considerar as leis. Pelo contrário, tem sim que considerar as leis e aprovar agilmente. Essa é a questão. A partir do momento em que aquilo se alia às políticas públicas sobre o território, o principal aliado é o administrador público. Então, o administrador público estar do lado de lá do balcão, está todo mundo do mesmo lado, porque é um projeto que interessa para a sociedade. E aí, vamos aqui, vamos ali, para aprovar.

Não são todos os projetos que interessam à sociedade?
É importante ter a definição de uma política pública clara para saber que projetos que se alinham. De fato, tem projetos que não se alinham à política pública.

Mas esses não têm de ser discutidos também? É possível vetar um projeto porque não interessa?
Se o projeto estiver em discordância com a legislação, deve-se sim dizer não. Por exemplo, se tal projeto vai ter um impacto de trânsito em determinado local, e para aquele impacto ele vai ter de ter uma série de ações, ele só pode ser aprovado com aquela série de ações. Isso é o jogo público. É dever do Estado zelar por isso, ou a gente vai para uma barbárie e você pode fazer qualquer coisa em qualquer lugar. Não. Pra fazer aqui, precisa apresentar o impacto ambiental, o impacto de trânsito, e um projeto consequente. E os projetos de grande escala, todos eles fazem isso.

Dois fatos em discussão na sociedade chamam atenção para a questão da aprovação de projetos: o shopping Iguatemi JK, que está impedido de abrir por falta de obras de mitigação do impacto de tráfego, e a explosão patrimonial do então diretor do departamento que aprova empreendimentos imobiliários. Esses dois fatos alertam a sociedade para essa discussão?
Eu entendo que sim, porque são dois fatores que vêm da falta de transparência. Qual foi a contrapartida exigida para o shopping JK? Qual o cronograma dessas contrapartidas? A sociedade sabe? Eu que sou bem informado sobre essas questões, eu não sei. Então, não está transparente. Quais foram as contrapartidas exigidas e qual o cronograma de implantação? Abre. Não agora. Abre lá atrás. Exigimos isso, isso e isso, as informações estão públicas, talvez as subprefeituras possam cumprir esse papel, para chegar mais perto da população. Abre o projeto, você vai saber onde é a cozinha. Não constrói pra depois saber que a cozinha ficou no lugar errado. Abre o projeto. “Eu vou construir um projeto que a cozinha está do lado direito e do lado esquerdo está a sala.” Aí eu falo que não pode ser a cozinha ali porque ali é a minha melhor vista. E aí vai.

No caso de um shopping center, qual o impacto de trânsito daquilo? Não pode olhar só o shopping center internamente como um objeto funcionando bonito lá dentro. Pode ser um projeto lindo lá dentro, mas e as consequências dele pra fora? O que ele está gerando para aquela população? O que ele está gerando a dois quilômetros de lá? Você já ter pego trânsito de shopping center no Natal perto da sua casa a três quilômetros do shopping center. Eu já peguei. O custo vai ficar pra você? Quem vai pagar essa conta? Agora, a consequência e a responsabilidade dessa aprovação é grande. A gente tem que aprimorar essa legislação.

A gente tem que responsabilizar os profissionais inclusive, porque profissional que faz uma coisa errada que não está dentro da lei deve ser cobrado disso, porque é obrigação do profissional trabalhar dentro da lei. Tanto um caso como outro estão pautando a questão da transparência da informação, que é ponto básico para a gente trabalhar. Transparência é os projetos sim. Por que não pode ter os projetos afixados? Por que aqui eu não sei o que vai acontecer do lado da minha casa? Essa informação tem de ser pública. Talvez até por legislação seja, mas não é exposta, a população não sabe como chegar nessa informação. Mas ela tem de ser pendurada lá na subprefeitura e saber que a prefeitura vai passar por aqui um ônibus, qual a concessionária, para onde vai, tudo tem de estar aberto. Essa é a responsabilidade do administrador público.

O sr. acha que nós estamos num momento rico dessa discussão?
Acho que a gente está mudando. Quando a gente fala da sedimentação de uma cultura urbana, isso faz parte da cultura urbana. Nós somos egressos do campo. Eu nasci aqui, mas na minha geração muita gente veio de fora, do interior, do campo. A gente está construindo essa cultura urbana, e faz parte dessa cultura urbana, assim como ir ao cinema, faz parte discutir a cidade, a comunidade estar organizada, a informação estar transparente, pautar essa discussão. Acho que é um momento rico nesse sentido, a gente está amadurecendo a cultura urbana no Brasil. A partir do momento em que nós viramos um país urbano. E o mundo está de olho nas cidades. Porque o mundo está se urbanizando, e a questão dessa divisão do território para nós, países de terceiro mundo, países emergentes, ela é fundamental.

A nossa cidade talvez esteja pautando hoje uma das questões mais importantes no mundo: como nós vamos administrar essa migração para as cidades, e na velocidade que nós tivemos, na escala que nós tivemos, e como é que nós vamos resolver esses problemas. Porque são problemas que, esses sim, vão desenhar a nova arquitetura do século no mundo. Como é que Brasil, América Latina, África, como é que nós vamos fazer? Como é vamos começar a nos inserir no mundo da produção nessa situação?

É só trazer uma Copa do Mundo e uma Olimpíada.
(risos) E não discuta a Copa e a Olimpíada no aspecto de o que elas podem deixar na cidade e construa vários objetos, que daí a Copa e a Olimpíada acabam que, além de ter uma cidade ruim você tem uma cidade ruim com objetos enormes para você pensar em usar. A maneira com foi discutida nas cidades não foi positiva. Talvez ainda tenha formas de fazer ser.

Em um ano e meio tudo estará pronto para a Copa. Dá tempo?
Talvez a gente vai poder pegar o rescaldo. Mas o investimento foi em objetos. Talvez alguma coisa de infraestrutura seja gerada, de transporte e tal, mas a coisa foi em objetos e talvez em poucas conexões. É uma pena. Uma Olimpíada ou uma Copa podem transformar uma cidade, nós já vimos no mundo, mas aqui, da forma como encaminhado para as cidades, ainda não está sendo um pensamento estrutural.

O sr. acha que não vai existir legado desses eventos?
Vai ter, vai ter um legado. A questão é se esse legado vai ajudar a gente a enfrentar os problemas que nós estávamos listando ou se vão agravar esses problemas.

O que o sr. acha?
Acho que não houve enfrentamento íntegro da questão. Ele não pautou a estruturação das cidades como poderia ter pautado. Não pautou a otimização dos investimentos pregressos. Não estou falando apenas de São Paulo. Estou falando de Recife, estou falando de Belo Horizonte, estou falando das grandes cidades brasileiras. A atitude, por exemplo, com relação ao carro. O mundo inteiro sabe que carro não estrutura cidade. É impossível você estruturar uma cidade baseado no carro, no individual. Você tem de ter uma solução de transporte público forte. Eu ainda não vi.

O sr. anda de carro?
Às vezes.

Mas o sr. mora no centro?
Eu moro do lado de uma estação de trem. Hoje, por exemplo, eu vim de trem e metrô

O sr. sempre opta pelo transporte público?
Eu opto. Nos últimos anos, individualmente, eu tenho construído um dia a dia que conta, sim, com o trem e o metrô. Em 20 minutos eu estou aqui [no centro]. Muito melhor que o carro. Eu trabalho aqui há 18 anos, numa afirmação de que aqui é viável trabalhar. Nunca tivemos um problema aqui nessa região, nunca. A vizinhança é muito boa. O centro, sob o ponto de vista demográfico, é o copo meio cheio ou meio vazio? A minha hipótese é que é o copo meio cheio. Tem vida boa aqui, é legal você viver aqui.

O meu escritório é em frente à praça da biblioteca, tem sempre menino jogando bola. Você conhece inclusive os moradores de rua, eles são pessoas que estão por aí, por uma circunstância da vida não tiveram as mesmas oportunidades que os outros, ou tiveram algum revés na vida, mas estão aí, você conhece, sabe quem são, são vizinhos nossos. Assim como são os que moram perto, como quem trabalha aqui perto, independente do trabalho que faz.

(José Armênio de Brito Cruz, 52, assumiu no começo deste ano a presidência do departamento paulista do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil) com uma festa em pleno centro de São Paulo e a meta de mostrar à sociedade que os arquitetos conhecem as técnicas para construir uma cidade melhor.Formado em 1982 pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP), Cruz é fundador do escritório Piratininga, autor de projetos como a reforma da biblioteca Mário de Andrade e o conjunto Comandante Taylor, em Heliópolis.Ele diz que a segregação dos condomínios fechados é uma das causadoras da violência e afirma que é preciso as regiões da cidade sejam ocupadas por pessoas de todas as classes sociais.)

 

 

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Sobre SPM - Serviço Pastoral dos Migrantes

O Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) é uma Pastoral Social, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1985, que promove os direitos humanos, sociais, econômicos, políticos e culturais dos migrantes e imigrantes e comunidades de origem, trânsito e destino.
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