O sequestro de migrantes

22.11.11 – México

La Jornada
Diário mexicano
Adital

Tradução: ADITAL Por Jorge Durand

A Comissão Nacional de Direitos Humanos do México (CNDH) publicou recentemente o Relatório especial sobre sequestro de migrantes no México. Trata-se de um documento detalhado e baseado em um amplo trabalho de investigação em diferentes estações migratórias, dependências oficiais, casas de migrantes e lugares de trânsito. Em mais de 2.000 visitas de trabalho de campo, pode-se constatar 214 eventos de sequestro de sem documentos e, dado que se trata de plágios massivos são vários milhares de pessoas envolvidas nessas ações.

A investigação contrasta com a prática política nesses casos de primeiro negar os fatos e, em seguida, com a pressão pública, proceder à investigação, de maneira tortuosa e pouco efetiva.

O relatório da CNDH sobre o sequestro coloca dados concretos e informação confiável a um fenômeno onde a situação de vulnerabilidade não apresenta uma diminuição e os grupos que comentem violações em seu prejuízo especializaram-se e diversificaram suas estratégias.

Também se constata e denuncia que em 9% dos casos, os testemunhos assinalam que existem vários tipos de policiais e funcionários de migração envolvidos, o único que se salva é o exército. Porém, além de funcionários e autoridades estão reunidos em um complexo entrançado de informantes, taxistas, maquinistas e coyotes (*), que servem de apoio aos grupos de delinquentes dedicados ao sequestro, à violação e à extorsão.

Desde 2006, nas casas de migrantes, em sua maioria, mantidas pela Igreja Católica e por organizações afins, começou-se a reportar o fenômeno como uma nova modalidade delitiva. O clímax aconteceu em 2010, com o sequestro e o massacre de 72 migrantes da América central, em San Fernando, Tamaulipas.

Um dos sobreviventes de San Fernando foi entrevistado pela CNDH e seu testemunho está incluído no final do relatório, junto com outros tantos que dão conta da ferocidade e da brutalidade exercida pelos seqüestradores sobre suas vítimas.

Se bem as modalidades desse delito e o uso de informantes variam segundo os casos e as regiões, o modus operandi para estabelecer o contato com os familiares de migrantes e o envio de dinheiro é exatamente o mesmo. Os que extorquem utilizam a mesma modalidade que recorrem os sem documentos para solicitar dinheiro e apoio a suas famílias. Os envios chegam por Western Union e outros sistemas de envios de remessas. Muitos deles em bancos, que contam com câmeras, exigem identificação e têm bases de dados que podem ser rastreadas com facilidade pelas autoridades competentes, se fizessem seu trabalho.

Como medida de segurança, os migrantes vão pedindo dinheiro a suas famílias pouco a pouco, enquanto avançam na rota e, desse modo, se sentem protegidos dos assaltantes que roubam seu dinheiro. Após chegar à fronteira, o migrante contrata o coyote, a quem paga no lugar de destino, quando a mercadoria é entregue. Até o século passado, tratava-se de um serviço garantido, somente se pagava o coyote quando o sem documento chegava ao seu destino. Obviamente, o coyote cuidava de sua mercadoria e somente a entregava quando havia recebido o pagamento e eram tomadas as devidas precauções, tanto por parte dos familiares quanto por parte dos coyotes.

Em ocasiões, os coyotes eram golpeados ao entregar a mercadoria ou não recebiam o que havia sido acordado. Daí que na hora de aproximar-se ao destino, os migrantes eram praticamente amarrados e custodiados para que não escapassem sem pagar. No entanto, os acordos eram respeitados por ambas as partes e muitas vezes eram contratados coyotes conhecidos ou que pertenciam ao povoado de origem. O negócio se baseava na confiança mútua e era bastante seguro.

Os migrantes sem redes sociais e sem contatos eram os que estavam mais expostos à extorsão e ao engano. Da mesma forma, os sem documentos das zonas emergentes, como Veracruz, por exemplo, se encontram mais expostos e vulneráveis na hora de passar a fronteira. Algo similar acontece com os centro-americanos, especialmente com os hondurenhos, que é o grupo mais recente em envolver-se no processo migratório internacional que cruza pelo México.

A chegada de migrantes das novas zonas de origem do México e da América Central gerou uma superdemanda de serviços, o que levou à improvisação de coyotes sem experiência, que abandonavam aos sem documentos no deserto e a entrada do crime organizado no negócio.

O sequestro de migrantes se baseia na quantidade de sequestrados, não na qualidade do plagiado e no montante de seus recursos. É a extorsão dos pobres em troca de sua vida. Supõe-se que o migrante tem recursos equivalentes ao pagamento do coyote, pelo que as somas se limitam a uns poucos milhares de dólares, que, multiplicados por 10 ou 20 pessoas, resultam bem significativas.

O sequestro de migrantes multiplicou-se porque os pobres não reclamam e, caso o façam, ninguém os atende, ainda mais se são estrangeiros sem documentos. Em três anos e meio, de dezembro de 2006 a junho de 2010, a Unidade Especializada na Investigação de Sequestros da PGR somente iniciou três interrogatórios por esse delito. Um recorde nacional de uma interrogatório por ano. Por seu lado, em um ano e meio, a Secretaria de Defesa Nacional (Sedena) realizou 17 operativos e libertou a 486 migrantes de várias nacionalidades vítimas de sequestro, incluídos mexicanos.

O Relatório da CNDH demonstra que a Estratégia nacional e Integral para o Combate ao Sequestro não funciona e que a Unidade de Investigação tampouco faz seu trabalho. Paradoxalmente, as pistas são claras, o modus operandi não mudou; somente têm que rastrear os envios.

(*) Nota da Edição: “Coyotes” ou “polleros” é p termo utilizado para designar as pessoas ou organizações que se dedicam ao ilícito contrabando de sem documentos para os Estados Unidos. Um negócio que, além de por em perigo a vida de milhares de pessoas, resulta uma atividade muito lucrativa para o crime organizado porque a cada ano gera ao redor de 6.6 bilhões de dólares, segundo o relatório “La globalización del delito: evaluación de la amenaza del crimen organizado trasnacional”, elaborado pelas Nações Unidas.

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Sobre SPM - Serviço Pastoral dos Migrantes

O Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) é uma Pastoral Social, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1985, que promove os direitos humanos, sociais, econômicos, políticos e culturais dos migrantes e imigrantes e comunidades de origem, trânsito e destino.
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