Reading e a mistura étnica bem-sucedida

Há cinquenta anos, esta cidade próxima de Londres atrai imigrantes de todo o mundo. Lá, falam-se 150 línguas e se convive muito bem

No século XIX, vinha-se a Reading do interior inglês para trabalhar nas usinas da revolução industrial.

Nas décadas de 1950 e 1960, a cidade recebeu uma forte onda de imigração dos países da Commonwealth, cujos habitantes se beneficiavam automaticamente da cidadania britânica. Hoje, essa cidade de cerca de 200 000 habitantes é um pólo de indústrias de alta tecnologia e serviços financeiros.

Recentemente, Reading deixou de ser a cidade dos engarrafamentos e dos seguros para se tornar a Meca dos pesquisadores de sociologia e linguística: um estudo recente recenseou 150 línguas diferentes nas escolas da cidade. A mistura étnica é tal riqueza que, em certas escolas, nem metade dos alunos têm o inglês como língua materna. Trata-se de uma boa notícia, de um inconveniente prático ou de uma ameaça ao tecido social e econômico?

Desde a revolução industrial, Reading se construiu graças à imigração. Porém, o fenômeno é de uma amplitude considerável. A cidade tem o maior número de falantes de bajan (crioulo de Barbados) do mundo fora de Barbados. Somaram-se aos imigrantes do Caribe dos anos 1950 os paquistaneses e indianos nos 1960; sucederam os da África Oriental dos anos 1970 os vietnamitas, indonésios, poloneses e filipinos. Os mais recentes vieram dos lugares maltratados do mundo, como Ruanda, Etiópia e Afeganistão.

Na Rua Oxford, pode-se ouvir pendjab, ioruba, guarani, temne e uzbeque. Pode-se ler o jornal polonês Dziennik Polski, beber num pub polonês, fazer abdominais numa academia mantida por húngaros, fazer tranças africanas, comprar especialidades portuguesas ou comprar carne preparada segundo os preceitos islâmicos.

Nas colinas de Reading, a escola primária de Battle atende 442 crianças de 42 países diferentes; menos de dois terços das crianças têm o inglês como língua materna. O pátio de recreação é uma verdadeira torre de Babel, onde convivem dialetos e línguas cuja existência a maioria dos habitantes de Reading ignoravam, como o pachto, tagalo, marata e kikuyu. A equipe do estabelecimento também reproduz a imagem do pátio: há poloneses, asiáticos, paquistaneses e Indianos, bilíngues ou trilíngues em sua maioria.

Contrariando as expectativas, essas crianças conseguem aprender perfeitamente o inglês em dois anos, sobretudo se chegaram cedo. A única coisa que a equipe pedagógica não aceita é não poder se comunicar com seus alunos. Por isso, as crianças que têm uma língua comum trabalham em dupla. As aulas não são traduzidas. As técnicas de ensino privilegiam os métodos mais visuais e as crianças aprendem o inglês graças a técnicas de dramatização. Com essa abordagem, mesmo aqueles que têm o inglês como língua materna desenvolvem seu vocabulário e têm melhores resultados.

Isso traz uma energia inacreditável à cidade

Mas se os filhos de imigrantes fazem progressos marcantes, ainda estão longe de atingir os níveis exigidos nas escolas onde o inglês é a língua materna da maioria dos alunos. “Nós não estamos em pé de igualdade com as outras escolas”, consta o diretor adjunto da escola, Colin Lavelle. “Partimos com mais dificuldades que as escolas dos bairros ricos de Reading. Se é frustrante? Só se você compara com os resultados nacionais”. O fluxo incessante de imigrantes que chega a Reading cria uma sensação de deslocamento, mesmo um ressentimento naqueles que vivem lá há muitos anos. “Essa situação traz uma vitalidade e uma energia inacreditáveis à cidade”, explica Rob Wilson, deputado dos bairros do leste de Reading. “Contudo, há um certo tempo, o ritmo e a amplitude deste fenômeno se tornaram uma fonte de inquietude para muitos de meus eleitores. Esse afluxo humano engendrou uma pressão enorme sobre certas escolas, sobre a habitação, os serviços médicos e os serviços públicos em geral. As pessoas pensam que fomos longe demais e que o governo deve retomar o controle da situação”.
O conselho municipal de Reading oferece cursos de inglês por somas simbólicas, na esperança de que essas competências linguísticas darão aos desempregados, aos recém-chegados e aos pais de crianças escolarizadas segurança suficiente para se integrar à comunidade. A prefeitura de Reading e os assistentes sociais são categóricos: Reading não é diferentes das outras cidades que atraem os estrangeiros. Na cidade vizinha de Slough, que acolhe a maior diversidade de culturas depois de Londres, 40% da população é de origem estrangeira. Numa sala de aula de escola primária, as crianças falam 22 línguas diferentes. E ainda assim, os resultados das escolas no ano do GCSE [exame de conclusão de ensino secundário] estão entre as melhores do país.

“Este afluxo de pessoas desejosas de trabalhar é uma oportunidade para nossa cidade”, explica Ruth Bagley, à frente da prefeitura. “Como as pessoas de diferentes culturas são acostumadas a viver lado a lado, nossa coesão social é boa não apesar dessa diversidade, mas sim graças a ela.”

Traduzido de: Courrier International, 18/02/2010.

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Sobre SPM - Serviço Pastoral dos Migrantes

O Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) é uma Pastoral Social, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1985, que promove os direitos humanos, sociais, econômicos, políticos e culturais dos migrantes e imigrantes e comunidades de origem, trânsito e destino.
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