Vice-Presidente do SPM, Elizete Sant’Anna de Oliveira, recebe prêmio João Canuto.

O MHUD – Movimento Humanos Direitos,  do Rio de Janeiro concede a Elizete Sant’Anna de Oliveira, o prêmio João Canuto, em reconhecimento a sua dedicação a luta dos migrantes e refugiados.

Vice presidente do SPM Elizete Sant'Anna de Oliveira recebe o premio João Canuto.

No dia 01 de dezembro de 2014 no Teatro Laura Alvim no Rio De Janeiro, o MHUD (Movimento Humanos Direitos) formado por artistas de renome e várias outras pessoas da sociedade civil, comprometidos com a garantia de Direitos Humanos no Brasil, promoveram o prêmio João Canuto – Liderança Sindical do Estado do Pará, que fora assassinada, por defender uma reforma agraria no Brasil.
Junto com mais sete pessoas e Entidades, foi premiada, ELIZETE SANT’ANNA DE OLIVEIRA, pelos seus trabalhos e presenças no campo da defesa dos direitos humanos e do cuidado das pessoas em situação de vulnerabilidade. Foi um momento de reconhecimento da história de uma lutadora, que dedica sua trajetória vida a promover os direitos dos migrante e de refugiados que são violados em seus direitos mais fundamentais. “É uma festa emocionante, que fortalece a vida e a cultura do encontro diante de um mundo carregado de violência e de corrupção”.
A homenagem foi recebida pelas Mãos de Dira Paes, Atriz de reconhecimento Internacional, mais que naquele momento, expressava sua solidariedade e compromisso com uma causa, em nome de sua indignação com a violação dos Direitos Humanos. Em sua preleção, diante de todos e todas presentes afirmou que ELIZETE, Leiga Scalabriniana, vice Presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes, recebia aquela homenagem, “Pelos inestimáveis serviços prestados ao povo brasileiro em prol de um País mais justo e solidário” no campo das migrações.
Na ocasião, cada pessoa, homenageada, ou representante de instituição, destacava a importância das bandeiras ali defendidas, e exortavam o direito a vida e a diferença, que toda sociedade deve garantir.
A Elizete como Vice Presidente do SPM – Serviço Pastoral do Migrante expressou sua gratidão e ao mesmo tempo seu compromisso com a causa do migrante e do refugiado. Ao tempo que nomeou várias Instituições comprometidas com a mesma causa como: Caritas, Serviço Pastoral dos Migrantes, Missão Scalabriniana… entre tantas outras que estão junto como as pessoas que buscam um futuro de dignidade.
Parabenizamos Elizete pelo seu importante trabalho e por tua presença no mundo das migrações e ao MHUD, Movimento Humanos Direitos, coordenado pela atriz Camila Pitanga, que junto com seus pares, têm feito esforços defender uma reforma agraria ampla e irrestrita, a demarcação das terras indígenas, em denunciar a violência contra as mulheres e em dar visibilidade a vários sujeitos e causas que vivem e são marginalizados e criminalizados.
site: http://www.humanosdireitos.org Vale a pena conferir.
SPM – SERVIÇO PASTORAL DOS MIGRANTES

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BOLSA FAMÍLIA PARA IMIGRANTES EM SÃO PAULO.

A Prefeitura de São Paulo em coordenação com o Governo Federal, darão bolsa família para os imigrantes que moram na cidade de São Paulo.
Os principais requisitos para aceder a esse beneficio são:

  1. a) Ter protocolo do pedido de refúgio ou protocolo de Registro Nacional de Estrangeiros ou Carteira de Trabalho além de CPF;
  2. b) Não ter ingressos mensais superiores a R$ 140.

Data para cadastramento de estrangeiros interessados: do dia 8 até o 14 de dezembro de 2014.

Local: Centro de Referência e Acolhida para o Imigrante – Rua Japurá, 234, bairro da Bela Vista, região central, São Paulo. Horário de funcionamento: das 8h às 17h.

Mulher ou homem imigrante cadastrado neste programa do Bolsa Família terá direito aos outros programas do governo federal, como o Minha Casa Minha Vida.

fonte: Aneib

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Presas estrangeiras: contexto de violações ainda mais grave nas prisões brasileiras

28.11.2014

Adital

Até que ponto o encarceramento em prisões é uma política capaz de promover justiça, segurança e ressociabilização à população brasileira? A Irmã Michael Mary Nolan, presidente do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC) responde que a privação de liberdade não funciona como uma política social efetiva. Ao contrário. Para ela, a política de encarceramento em massa está, hoje, permeada por uma política de guerra às drogas, de criminalização da pobreza e é um reconhecido espaço de violação de direitos.

Entre a população carcerária feminina, o contexto é ainda mais grave quando se trata de estrangeiras. Em entrevista exclusiva à Adital, a advogada de direitos humanos, especializada no trabalho com prisioneiras mulheres estrangeiras no Brasil, aponta que os casos da maioria das mulheres presas são uma consequência do aliciamento por parte do tráfico internacional de drogas, que as interceptam para atuarem como “mulas” do crime organizado, no transporte de substâncias psicotrópicas ilegais. Muitas vezes, elas nem sequer têm conhecimento da presença de drogas entre seus pertences.

Para as mulheres estrangeiras as ocorrências são ainda mais complexas, já que, além do conflito com a justiça, elas alegam sofrerem negação de direitos e discriminação em seus processos criminais. Segundo Michael, muitas vezes benefícios de execução de pena são negados simplesmente por elas não serem cidadãs brasileiras, mesmo que a legislação não preveja esse tipo de diferenciação. A dificuldade com o idioma na rotina carcerária é apontada como mais uma barreira no processo criminal, bem como a ausência de assistência aos direitos básicos das presas.

Nesse contexto, até mesmo depois que saem da prisão, as estrangeiras seguem enfrentando uma série de adversidades. A primeira delas, de acordo com irmã Michael, é encontrar espaços de acolhimento que as aceitem pelo fato de serem estrangeiras e egressas do sistema prisional.

Além disso, a maioria das mulheres é libertada sem portar consigo nenhum documento de identificação, o que as deixa numa situação irregular e ainda mais vulnerável na busca de acesso às políticas públicas e reinserção social. Segundo ela, a política social para pessoas em conflito com a lei deve basear-se no combate às políticas de exclusão e no desencarceramento. Atualmente, cerca de 750 mulheres estrangeiras estão encarceradas em presídios brasileiros, a maioria das nacionalidades boliviana, sul-africana e angolana.

ADITAL – Como são os atendimentos sociais prestados às presas estrangeiras pelo ITTC?

Michael Mary Nolan – OProjeto Estrangeiras, do ITTC [organização não governamental com sede na cidade de São Paulo (Estado em São Paulo), que atua na defesa dos diretos dos cidadãos com o objetivo de reduzir o encarceramento], realiza visitas semanais à Penitenciária Feminina da Capital, que concentra a maior parte das estrangeiras privadas de liberdade em prisão provisória e em regime fechado no país, e visitas mensais ao Centro de Progressão Penitenciária Feminino do Butantã, onde está a maior quantidade de estrangeiras em regime semiaberto.

Nessas visitas, são realizados atendimentos diretos, tanto individuais como coletivos, a fim de levantar as demandas destas mulheres, dar encaminhamento para resolvê-las e dar o devido retorno a elas sobre a nossa atuação com relação a cada caso.

Uma das maiores demandas é de atendimentos que chamamos de sociais, que se referem tanto à facilitação do contato delas com seus familiares no país de origem e com órgãos responsáveis pelo acompanhamento dos seus casos (Defensorias Públicas, representações diplomáticas, rede sócio-assistencial, entre outros), assim como à assistência em situações específicas que exigem mais atenção. É o caso, por exemplo, de mulheres gestantes em privação de liberdade, mulheres puérperas, que ficam com seus bebês recém-nascidos dentro da unidade prisional, e mulheres cujas crianças necessitam serem repatriadas ao país de origem ou se encontram em acolhimento institucional, por não terem pessoas que possam manter seus cuidados no período de encarceramento da mãe.

Além dos atendimentos sociais, prestamos orientação jurídica a essas mulheres com relação às diversas dúvidas que apresentam sobre seus processos criminais e sobre seus direitos. O ITTC realiza contatos com as famílias das presas, os consulados e terceiros para ajudarem a resolver os problemas apresentados. Também orienta as presas sobre seus direitos.

ADITAL – Qual o crime mais comum atribuído às presas estrangeiras?

MMN – Tráfico internacional de drogas. A maior parte das mulheres que acompanhamos foi presa como “mulas” do tráfico, na tentativa de embarcarem com drogas para o exterior. Em alguns casos, sem sequer terem a consciência sobre a presença de drogas em suas bagagens.

ADITAL – As presas estrangeiras têm atendimento jurídico satisfatório?

MMN – A maior parte das estrangeiras em conflito com a justiça é assistida em seus casos pelas Defensorias Públicas da União e do Estado, que se esforçam para prestarem atendimento jurídico satisfatório. Devido à grande quantidade de casos em que atuam e à quantidade insuficiente de profissionais que trabalham nesses órgãos, existe certa dificuldade em realizar atendimentos pessoais com frequência, mas a defesa nos processos criminais é sempre garantida.

Em maio de 2014, o Projeto Estrangeiras firmou um acordo com a Defensoria Pública da União, que permitiu o destacamento de pessoas estagiárias desse órgão para atuação direta e permanente com o Projeto Estrangeiras, o que aprimora a atuação tanto do projeto como da Defensoria. Além disso, semanalmente, somos acompanhadas por defensores e defensoras, que auxiliam com os atendimentos jurídicos. Sim, tanto a Defensoria Pública da União quanto a defensoria estadual prestam um excelente atendimento jurídico.

ADITAL – Qual a principal queixa das presas?

MMN – Uma das principais queixas diz respeito à negação de direitos e à discriminação que alegam sofrerem em seus processos criminais por serem estrangeiras. Em muitos casos, benefícios de execução de pena (progressão de regime e livramento condicional, sobretudo) são negados às estrangeiras somente com base nesse fato, apesar da legislação não prever tal discriminação e, pelo contrário, pregar a igualdade entre pessoas brasileiras e estrangeiras.

Outras queixas recorrentes são relativas à dificuldade de acesso à saúde dentro do sistema prisional, à dificuldade com o idioma na rotina dentro do estabelecimento e no processo criminal e à ausência de assistência de um modo geral.

Mesmo quando saem da prisão, as estrangeiras seguem enfrentando uma série de adversidades, a começar pela dificuldade de encontrarem espaços de acolhimento que as aceitam, pelo fato de serem estrangeiras e egressas do sistema prisional. Além disso, a maioria das mulheres é solta sem levar nenhum documento de identificação consigo, o que as coloca em situação irregular e entrava a busca por emprego e o acesso a políticas públicas.

ADITAL – Qual o principal motivo alegado pelas presas para terem entrado no mundo do crime?

MMN – Na grande maioria dos casos, que são relacionados ao tráfico de drogas, as mulheres não chegam a “entrarem do mundo do crime”, já que não se tornam parte de organizações, sendo apenas aliciadas para carregarem determinada quantidade de drogas para o exterior em troca de certa quantia em dinheiro.

O aliciamento e a aceitação da realização desse serviço ocorrem, sobretudo, devido a dificuldades financeiras e situações de necessidade vividas por essas mulheres que, geralmente, provêm de famílias numerosas e pobres das quais são as principais provedoras.

Entendemos que, em alguns casos, as pessoas aliciadas como “mulas” do tráfico de drogas são vítimas do tráfico de pessoas, por ocorrer o aproveitamento de sua situação de vulnerabilidade por parte de aliciadores, que recorrem a ameaças, fraude e outros mecanismos para a aceitação da realização do carregamento das drogas por parte dessas “mulas”. Entendemos que é a vulnerabilidade das mulheres que leva a maioria a entrarem nesse empreendimento. Entendemos que muitas são vítimas do tráfico humano.

ADITAL – Quem são os parceiros do ITTC?

MMN – As defensorias públicas, alguns consulados e pessoas que se interessam pela questão.

ADITAL – Do momento da acusação até o encarceramento, quais as violações dos direitos humanos que as presas mais sofrem?

MMN – O próprio sistema prisional do Brasil é uma violação de direitos. A política de encarceramento em massa acarreta a superlotação das unidades prisionais, que se tornam espaços de tortura permanente contra uma população marginalizada, que é, ao mesmo tempo, ignorada pelo Estado, no que diz respeito a políticas sociais, e alvo da seletividade do poder punitivo.

ADITAL – Há alguma mulher que foi presa por engano e cumpriu pena mesmo assim?

MMN – Há alguns casos de mulheres que ficaram presas provisoriamente e foram absolvidas em primeira instância, ao fim do processo de conhecimento. Há um caso de uma mulher que foi condenada a uma pena privativa de liberdade em primeira instância, cumpriu parte da pena e foi absolvida em segunda instância em Apelação Criminal.

ADITAL – Qual a visão que o Instituto possui a respeito da prática do encarceramento? É uma prática fracassada?

MMN – O Instituto é a favor do desencarceramento por entender que a política de encarceramento em massa é fracassada e injusta ao ser seletiva e direcionada à parte da população que, historicamente, sofre com a exclusão social e a invisibilidade no Estado de direito; que é o caso da população jovem, pobre, negra, moradora das regiões mais periféricas da cidade ou em situação de rua. Mais recentemente, as mulheres nestas condições também têm se tornado alvo desta política e da seletividade por parte do poder punitivo. Entendemos que é uma pratica fracassada e injusta.

ADITAL – O sistema prisional brasileiro consegue proporcionar alguma atividade de recuperação social para as detentas?

MMN – Não. O cárcere é incapaz de funcionar como “recuperador” ou “ressocializador” de pessoas por ser reconhecidamente um espaço de violação de direitos.

ADITAL – A política social com relação aos presos funciona? Quais são as soluções possíveis para mudar essa política?

MMN – Não existe política social com relação a pessoas privadas de liberdade, a não ser a política do encarceramento em massa, permeada pela política de guerra às drogas e pela criminalização da pobreza. A solução está no combate a todas essas políticas de exclusão e no desencarceramento.

ADITAL – O ITTC tem outros projetos que aparam as presas? Quais?

MMN – Em parceria com uma missionária voluntária, membro da Pastoral Carcerária, o ITTC tem desenvolvido ciclos de oficinas de saúde, direitos sexuais e gênero na Penitenciária Feminina da Capital [São Paulo].

ADITAL – Como participar dos projetos e atividades sociais do ITTC?

MMN – Frequentemente, abrimos editais de contratação de novos integrantes para os diversos projetos desenvolvidos pelo ITTC, todos disponibilizados acessíveis em nosso site e em nossa página no Facebook.

(Colaborou Marcela Belchior)

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83475

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Migrantes de Caxias do Sul apresentam demandas à sociedade em Seminário de Mobilidade Humana

13/nov/2014, 17h18min

Débora Fogliatto

Migrantes vindos de países africanos para Caxias do Sul, na serra gaúcha, participaram nesta quinta-feira (13) do III Seminário de Mobilidade Humana do Rio Grande do Sul: Marco Legal Migratório e Políticas Públicas. Junto com a Irmã Maria do Carmo Gonçalves, coordenadora do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), dois representantes dos senegaleses e um dos ganeses que vieram para o Brasil falaram de suas dificuldades e conquistas.

A cidade recebeu centenas de migrantes nos últimos anos, que vieram ao país em busca de trabalho. Com a falta de legislação específica para essa situação, a maioria deles protocolou pedidos de refúgio para tentar conquistar direitos. Para mudar essa realidade e garantir direitos básicos como habitação, emprego, saúde e escola, um grupo de especialistas elaborou um anteprojeto de lei que aborda a questão das migrações pelo viés dos direitos humanos.

A partir desse novo cenário, a Irmã Maria do Carmo lembrou que as demandas dos imigrantes “são as mesmas de todo e qualquer ser humano:  felicidade, paz, amor, respeito, vida digna”. Por isso, ela apontou a necessidade de olhar para os estrangeiros “da perspectiva do humano” para que se possa reconhecê-los. “A sociedade não reconhece o direito de migrar como um direito humano, direito de estar aqui, de usar o sistema de saúde”, lamentou.

O CAM, entidade ligada à Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo, acolheu os africanos e haitianos que chegaram à cidade. Durante a fala de Maria do Carmo, slides mostravam fotos da Primeira Marcha dos Migrantes de Caxias do Sul, realizada no ano passado. Em uma das placas no ato, lia-se “Nenhum ser humano é ilegal”. “Não pode ser considerado irregular uma pessoa buscar uma vida melhor em outro país”, apontou Maria.

Ela afirmou que a xenofobia que rondou a chegada dos imigrantes africanos a surpreende. “O novo rosto migrante no Brasil é um rosto negro, e infelizmente no Brasil temos ainda problema de racismo. A xenofobia existe de forma muito forte, surpreendeu muito a forma como as pessoas se sentem à vontade de diminuir direitos, a partir do ponto de vista de alguém ser um migrante”, observou a Irmã.

Por todos esse motivos, os migrantes em Caxias esperam conseguir a possibilidade de permanência; acesso a políticas públicas de saúde, educação, habitação, trabalho; a possibilidade de ir e vir. Maria do Carmo e os três africanos que compuseram a mesa afirmaram que os migrantes ficam sem ver sua família por não poderem retornar seu país de origem enquanto aguardam pela solicitação de refúgio. “As pessoas ficam de alguma forma aprisionadas dentro dessa questão, que é quase como um limbo, uma meia cidadania. Na prática, não se efetiva os direitos do solicitante de refúgio”, disse.

Sem o Registro Nacional de Estrangeiro (RNE), as pessoas não podem abrir conta no banco, fazer carteira de motorista, acessar Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), financiar móveis e imóveis, alugar um imóvel, garantir seus direitos quando ocorre alguma violação em seu local de trabalho. Além disso, a rede de apoio aos migrantes exige a responsabilização dos municípios nesse acolhimento, o acesso à informação em todos os níveis, participação social e estruturas de atendimento próprias para os estrangeiros.

Seguindo a mesma linha de Maria, Abdou Lahat Noiaye, presidente da Associação dos Senegaleses de Caxias, mais conhecido como Bili, falou que os imigrantes ainda encontram muitas dificuldades. Ele mora no país há quatro anos e contou que os senegaleses realizaram reuniões para falar de suas reivindicações, onde sempre aparecem as questões de saúde e educação, assim como o racismo que sofrem. “Também queremos lugares para aprender português, além de conseguir os documentos. Cada um de nós na verdade quer voltar e ver a família, mas com protocolo de refúgio não tem garantia de que pode ir, mas não temos outra forma de fazer documentos fora disso”, apontou.

Ele também pediu que a prefeitura dê mais ajuda aos imigrantes e sugeriu que haja locais de moradia, como abrigos, onde eles possam ficar até se estabelecer. Bili contou que a própria Associação de Senegaleses agora aluga uma casa para ajudar quem está chegando à cidade.

Um caso complicado é o de Abdul Abdullahi, que veio de Gana com 17 anos. Ele está atualmente separado de seus compatriotas, morando em um abrigo para menores de idade. O ganês, que está aprendendo português, mas ainda prefere se comunicar em inglês, antes vivia no seminário junto com os outros migrantes de seu país. Apesar das dificuldades, Abdul agradeceu muito a todos os brasileiros pela ajuda e disse que reza pelo país. “Eu espero agora ter uma vida boa em Brasil”, colocou.

Assim como Abdul, o senegalês Serigne Mbacke Kebe foi inicialmente a São Paulo, de onde foi para Caxias. A sua história é mais antiga: faz sete anos que ele vive no Brasil e atualmente já tem emprego, mas ainda tem problemas com sua expedição de documentos. “Tenho família para ajudar, estou trabalhando. Tem muita coisa para fazer aqui e dizem que se não tem requerimento não pode. Não sei porque não saiu meus documentos”, lamentou, afirmando que não foi explicado para ele os tipos de problemas que aconteceram.

O Seminário iniciou-se na manhã desta quinta-feira (13), no auditório do Palácio de Justiça. Às 9h15, aconteceu o painel “Novos Rostos na Realidade Migratória do Brasil e do RS”, seguida por depoimentos de migrantes, e às 10h30 discutiu-se o novo Marco Legal Migratório. Depois das falas dos migrantes, aconteceram os debates “Migrantes na Visão Empresarial e Sindical” e “Ações dos Poderes Públicos”. O evento foi encerrado com a confirmação de propostas para as demandas.

http://www.sul21.com.br/jornal/migrantes-de-caxias-do-sul-apresentam-demandas-a-sociedade-em-seminario-de-mobilidade-humana/

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A situação política e social brasileira no trato com os povos migrantes

Paulo Emanuel Lopes

Adital

Segundo o último censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) [1], a quantidade de pessoas que chegou ao Brasil para residirem quase duplicou, passando de 143 mil entre 1995 e 2000 para 268 mil pessoas 10 anos depois.

Reflexo da crise financeira que se arrasta no mundo rico, boa parte desse incremento deve-se a brasileiros/as que retornam ao país. Em 2010, 65% dos imigrantes que chegaram ao Brasil eram brasileiros, vindos, principalmente, dos Estados Unidos e Japão.

O último censo, entretanto, não registra os novos movimentos migratórios no Brasil, como os ocasionados pelo terremoto do Haiti, em 2010 e pela inauguração da rota de entrada de haitianos/as pelo Estado do Acre. Podemos citar ainda o ingresso da Colômbia no Mercosul, em 2012, o aumento do número de estudantes africanos no Ceará [2] e, até mesmo, a Copa do Mundo de 2014.

A questão dos abrigos públicos

Uma importante questão apontada é a falta de albergues públicos especializados na recepção de imigrantes no Brasil. Irmã Eléia Scariot, da coordenação da Pastoral do Migrante em Fortaleza, aponta problemas enfrentados na capital cearense. “Os albergues que abrigam moradores de rua estão sempre lotados, e não são feitos para imigrantes. Nós chegamos a encaminhar imigrantes para esses lugares, mas tivemos experiências ruins. Aquilo que eles tinham, já pouco, foi tirado, histórias de pessoas que saíram sem suas mochilas, seus pertences… Nós não tínhamos conhecimento dessa precariedade”, reflete a freira scalabriniana.

Outro que cita a importância desses abrigos é o sacerdorte scalabriniano Paolo Parise, coordenador do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz, em São Paulo, instituição da Igreja Católica que vem desempenhando um importante papel na ajuda a esses povos na maior cidade do país. ”Nós recebemos essas pessoas, mas é necessário que haja uma ação efetiva do Estado receptor no oferecimento de um abrigo adequado, mas também na Barra Funda [Muitos desses imigrantes chegam a São Paulo pela rodoviária do bairro Barra Funda sem receber nenhum apoio]”, explica Parise.

A Prefeitura de São Paulo conta, desde agosto deste ano, com um albergue público no bairro da Bela Vista, zona central da cidade, com capacidade para albergar cerca de 100 pessoas. O local surgiu após o fechamento de um abrigo emergencial, onde, de acordo com a Prefeitura, passaram cerca de 2,4 mil pessoas em um período de quatro meses.

A Casa de Passagem Terra Nova é o mais novo abrigo público oferecido na cidade de São Paulo. Com capacidade para abrigar 50 pessoas, o local é uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, sob a gestão da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, com recursos do governo federal. A casa oferece uma permanência de 45 dias ao albergado, período em que ele/ela tem acesso a orientação profissional, oficina de idiomas e ajuda na inclusão no mercado de trabalho.

As relações diplomáticas do Brasil

O então presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva visitou o Haiti 44 dias após o terremoto, em 2010. Na ocasião o Brasil declarou apoio humanitário ao país afetado, disponibilizando-se a oferecer condições aos haitianos/as que desejassem emigrar para o Brasil.

A aproximação resultou na emissão da Resolução Normativa n° 97. Publicada em janeiro de 2012, a norma instituiu a emissão de visto permanente à população haitiana devido a “razões humanitárias em decorrência do terremoto ocorrido naquele país em 12 de janeiro de 2010” (art. 1°, par. único).

A razão humanitária, entretanto, não justifica sozinha a atual onda migratória de haitianos/as para o Brasil. Esta é uma das conclusões do estudo comandado pelos pesquisadores Geraldo Cotinguiba e Marília Pimentel [3]. Para além do terremoto, a grande maioria dos haitianos vem ao país sul-americano em busca de oportunidades de emprego, encontrando amparo legal nas razões humanitárias apontadas.

A resolução, na verdade, já foi uma tentativa de disciplinar esse fluxo, segundo afirmam os pesquisadores Geraldo Cotinguiba e Marília Pimentel [3]: “Em dezembro de 2011, o governo brasileiro anunciou a possibilidade do fechamento das fronteiras na região das rotas de entrada dos haitianos ou o controle do número de entrada, e o resultado disso foi a entrada em massa de centenas de pessoas em poucos dias”. Em 2013, uma nova resolução revogou o limite máximo de 1.200 vistos por ano, então em vigor.

Como observamos na reportagem da série #MigrantesAdital, cuja primeiras matérias foram publicadas nesta segunda-feira, 10 de novembro, [2], a evolução no número de estudantes africanos em Fortaleza também é reflexo da política diplomática sul-sul do então presidente Lula.

O ingresso da Colômbia no Mercosul foi outro fator para o aumento no número de imigrantes latino-americanos na cidade de São Paulo, principalmente. É o que observa o scalabriniano Paolo Parise, da Missão Paz. “Muitos colombianos começaram a chegar desde o ano passado, que foi quando a Colômbia entrou no acordo do Mercosul ampliado, e foi facilitado o recebimento da documentação”, afirma. Entretanto, a causa econômica não deve ser a única analisada no caso colombiano. “Mesmo que as estatísticas não apontem, muitos dos casos de imigração observados referem-se a casos de perseguição por conta dos conflitos internos do país”, complementa Parise.

Para a doutora em linguística e professora da Universidade Federal de Rondônia Marília Pimentel, o aumento no número de imigrantes ao Brasil, até o momento, não deve ser causa de preocupação. “Não defendemos restrições à entrada de imigrantes no Brasil. Quanto à questão de ser a hora do Estado brasileiro assim proceder, não concordamos, pois há cerca de 1 milhão e meio de imigrantes no país o que representa menos de 1% da população. É um número relativamente pequeno em relação a outros países. Nessa perspectiva, pelo menos até o presente momento, não há por parte do governo brasileiro restrições em relação a entrada de imigrantes no país, o que está ocorrendo, podemos dizer, é uma política de acolhimento”, afirma Pimentel.

Irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e membro do setor Mobilidade Humana da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), em entrevista à Adital, entende a questão migratória atual não como um problema, mas como uma oportunidade tanto do Brasil firmar-se politicamente no plano internacional como, no plano interno, de reforçar os laços humanitários que devem reger uma sociedade. “A nova imigração deve ser interpretada como uma oportunidade, não apenas para garantir uma vida digna para essas pessoas, mas também para reforçar no país o projeto de uma sociedade inclusiva, solidária e acolhedora”, explica a também scalabriniana Milesi.

Direcionar nossos esforços para uma nova lei de imigração

A atual legislação migratória brasileira, o “Estatuto do Estrangeiro”, data de 1980, período em que o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar. Segundo especialistas, atualizar esta lei para nossa atual situação deve ser prioridade do Estado brasileiro na questão migratória.

Para a irmã Eléia Scariot, uma das coordenadoras da Pastoral do Migrante em Fortaleza, Ceará, a luta é para que haja uma reforma nas leis migratórias. “Nós estamos lutamos para que haja um Estatuto do Imigrante, que existam políticas migratórias claras… Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, está escrito que migrar é um direito. Ir e vir, morar onde você considerar que é ideal. Temos que ter uma lei que possa, de verdade, atender às necessidades desses seres humanos”, afirma Scariot.

Na avaliação de irmã Rosita, “o governo brasileiro tem tido até agora uma postura bastante aberta em relação aos novos imigrantes, concedendo, em muitos casos, vistos humanitários para aqueles que não preenchem os requisitos da definição de refugiado”. O esforço, entretanto, é para que atualizemos nossa lei migratória. “Urge a elaboração de uma nova Lei de Migrações, que seja o resultado de uma política migratória norteada pela defesa e promoção dos direitos dos migrantes”, defende.

Segundo Marília Pimentel, que também é líder do Grupo de Pesquisa Migração, Memória e Cultura na Amazônia Brasileira, não há como garantir os direitos humanos dos povos migrantes sem uma nova lei de imigração no Brasil. “O Estado brasileiro precisa, urgentemente, efetivar uma política de migração. Hoje, não temos uma política migratória, temos uma lei da época da ditadura. Pela ausência de uma política [migratória atual], muitas vezes, o Brasil deixa de garantir os direitos fundamentais a esses grupos de imigrantes”, explica a pesquisadora.

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=83223

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Austrália nega vistos a países atingidos por Ebola

28/10/201407h29

Por Matt Siegel

SYDNEY, (Reuters) – A Austrália recebeu críticas de especialistas em saúde e de defensores dos direitos humanos, nesta terça-feira, após decretar uma proibição geral de vistos para nações da África Ocidental afetados pelo surto de Ebola, tornando-se a primeira nação rica a fechar as portas para a região.

A Austrália não registrou qualquer caso de Ebola apesar de uma série de casos suspeitos, e o primeiro-ministro conservador Tony Abbott tem resistido até o momento aos pedidos para que o país envie profissionais de saúde para ajudar a combater a doença nos países africanos atingidos.

A decisão de proibir a entrada de qualquer pessoa de Serra Leoa, Guiné e Libéria, que foi apontada pelo governo como uma precaução necessária, foi considerada por especialistas como politicamente motivada e míope.

“O governo tem controles firmes para a entrada de pessoas na Austrália sob nosso programa de imigração da África Ocidental”, disse o ministro da Imigração, Scott Morrison, ao Parlamento.

“Essas medidas incluem a suspensão temporária do nosso programa de imigração, incluindo o nosso programa humanitário para países afetados pelo Ebola, e isso significa que não estamos processando qualquer aplicação (de visto) desses países afetados”, acrescentou.

O surto de Ebola que começou em março já matou cerca de 5.000 pessoas, a grande maioria na África Ocidental.

Os riscos para a Austrália são pequenas devido ao isolamento geográfico do país, de acordo com Adam Kamradt-Scott, professor do Instituto de Doenças Infecciosas e Biossegurança da Universidade de Sydney.

“Esta é apenas uma decisão puramente política”, disse Kamradt-Scott. “Há muito pouca evidência científica ou racionalidade médica para você fazer isso, e este é o tipo de política que encontramos que começa a interferir com medidas eficazes de saúde pública.”

http://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2014/10/28/australia-nega-vistos-a-paises-atingidos-por-ebola.htm

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A luta incansável de uma mexicana pelos direitos dos migrantes não documentados nos EUA

Ilka Oliva Corado

Adital

Para saciar a curiosidade de tudo o que está ao redor do nome Elvira Arellano, que já é toda uma instituição na luta pelos direitos humanos dos migrantes indocumentados, dentro e fora dos Estados Unidos, só é necessário escrever seu nome em algum buscador da Internet e aparecerão centenas de milhares de artigos, seu nome desperta paixões em favor e contra da migração indocumentada.

Levava dois anos seguindo seus rastros e procurando entrevistá-la, o que não foi possível até o último dia 30 de setembro, quando pude conhecê-la pessoalmente e conversar con ela. Minha impressão? A de uma mulher muito capaz, com uma voz poderosa que atravessa fronteiras, em seu caso de santuário e deportação deu a volta ao mundo. Por que entrevistar Elvira Arellano? Porque chegou a este país como os milhões que vivem nas sombras da marginalização e exploração trabalhista, porque há muito o que aprender com ela, porque não aparenta, porque é autêntica. Porque é tão cabal pôde muito bem tirar vantagens para si e renunciou a toda forma de compra-venda, para fazer de sua voz o protesto e o escudo de milhões.

Um líder não se faz, ele nasce. Não há escolas nem universidades que respaldem com um título ou diploma, é a vida mesmo, a batalha diária e a consciência e sede de justiça, que despertam do pensamento à ação.

A entrevista foi realizada na Igreja Metodista Unida Adalberto, localizada no bairro portorriquenho da cidade de Chicago. O enfoque desta entrevista é o de um dos tantos rostos da migração forçada, do trabalho de ativista de Elvira há muitíssima informação na Internet, mas o que se sente migrar, quais são as causas, como se vive um santuário, a perseguição dos meios de comunicação, como se vive uma deportação e, posteriormente, o retorno. Elvira não costuma falar de sua vida pessoal, contudo, nessa ocasião, concordou, talvez porque não sou jornalista, mas uma indocumentada a mis que a procurou para conversar como fazem duas meninas ariscas que atravessam o território mexicano sonhando cruzar a fronteira e chegar ao território estadunidense.

Tem um caráter de brio, uma vontade inquebrantável que já foi posta à prova em uma infinidade de ocasiões. Saiba, leia e entenda que um dia neste país haverão escolas, institutos e centros culturais que levarão o nome de Elvira Arellano.

Muitos a chamam de Rosa Parks mexicana, em minha opinião é do relevo da grande Dolores Huerta, tem o tesão, a palavra, a honra, a vocação, a identidade, o sentido de pertencimento e uma dignidade que não cabe no peito. Ela é capaz de transformar, de contagiar de harmonia e escrúpulo, é capaz de despertar multidões.

Crônicas de uma Inquilina hoje apresenta a única, a voz de milhões de indocumentados nos Estados Unidos e no mundo, oriunda de Maravatío, Michoacán, México, hoje a fazemos nossa como um ser universal.

Compartilha esta entrevista, não a guarde, não fiquei apenas para você.

Ativismo de baixo

Chamou minha atenção que ainda deportada continuasse firme em tua denúncia, nos manifestos coletivos, e algo que me encantou foi sua forma consequente de usar as redes sociais, quem quer pode, não há desculpa que valha quando a consciência exige justiça e demanda solidariedade humana. Não é da boca para fora.

Concientizar as mesmas pessoas, por exemplo, em meu povo, muita gente critica e diz: por que ela anda ajudando outras pessoas e não faz aqui no povo? E eu lhes digo: bom, organizem-se e eu apoio vocês. Tinha um caso de alguém que me dizia que haviam sequestrado um familiar seu, que havia muita extorsão, e me dizia: olha, tu tens que fazer algo por isso, esquece dos migrantes, faça um trabalho aqui no povo. Disse a eles: eu, graças a Deus, não fui vítima de extorsão, por telefone somente, porque as ligações com ameaças é algo que tenho recebido durante anos, mas organizem-se e eu com muito prazer os apoio, mas não sou eu que tem que fazer tudo.

Como foi sua infância em Michoacán?

Foi muito bonita, ainda que fôssemos pobres éramos felizes. Desde menina, eu sonhava em viver melhor, meu avô foi estivador e tinha seu crachá de quando foi estivador, e nós víamos os filmes das pessoas que vinham para o norte, e sempre falavam do famoso cartão verde (green card); e minha irmã e eu sempre brincábamos de que vínhamos para o norte, então, brincávamos com o crachá do meu avô. Quantos vocês são? Somos cinco, eu sou a mais nova, com minha irmã são dois anos de diferença, com ela era que eu mais partilhava. E dos filhos sú você veio? Não, meus dois irmãos mais velhos vieram muito antes de mim, um deles regressou e o outro está vivendo aqui nos Estados Unidos com a sua família, tem suas duas filhas, que são gêmeas, são “Sonhadoras”, e também tem seus dois filhos, que são cidadãos estadunidenses. Está sem documentos? Sim, eu não falei muito da minha vida pessoal porque era um tempo muito difícil, creio que na administração do presidente Bush (filho) foi um tiempo muito difícil quanto ao racismo e à xenofobia.

O ambiente era muito difícil, minhas sobrinhas inclusive iam comigo para Washington dialogar comigo; com os congressistas, com os senadores, às marchas, sempre separadamente, eu ia com a organização e elas por sua própria conta. Foi até quando estive na igreja e me preguntaram se eu tinha família e eu lhes disse que não; por que? porque eu não queria expô-los, ainda que eles sempre me diziam que não importava, o que você tem que dizer não importa, eu disse que não tinha medo de ninguém porque se você luta tem que fazer com mais razão, não ter medo. E quando eu estive na igreja aqui na igreja eles vinham me visitar.

Pelo que me contas entendo que sempre quiseste vir para os Estados Unidos.

Sim, desde que tinha 15 anos. Eu dizia: eu quero trabalhar e ganhar dólares, eu pensava como todo mundo, que a vida era fácil e que se vem para os Estados Unidos para ganhar dólares. O que acontece é que, desafortunadamente, os seres humanos são demasiado defeituosos. No meu povo, por exemplo; as pessoas que vinham para os Estados Unidos sempre chegavam vestindo do melhor, chegavam mostrando dólares, chegavam mostrando suas caminhonetes, os que conseguiam economizar e comprar sua caminhonete, e ligavam o rádio a todo volumen – o tom em que diz isso me faz rir a gargalhadas porque da mesma forma acontece na Guatemala. Chegavam a mostrar tanto, seus tênis Nike novos e nós dizíamos emocionados: nossa, sim, ganha-se em dólares!

Mas nunca chegavam falando de todos os sacrifícios que faziam, da discriminação, que trabalhavam como burros de carga – acrescento: como mula, como burros de carga até três turnos por dia – andar se escondendo tanto da imigração como da polícia, tudo chegavam contando ao contrario, ou seja, falavam o melhor, como dizer: eu não tenho problemas de que a imigração me pegue, lá onde eu vivo tudo é tranquilo, trabalham, ganham dólares, falam como se fosse a maravilha do mundo, verdade.

Você pensa que é tão fácil e diz: já cansei de trabalhar aqui, ganha tão pouco e apenas o suficiente para sobreviver. Graças aos meus pais eu pude estudar, terminei meu secundário e fiz dois años de uma carreira técnica, sou secretária empresarial e sim trabalhei com isso, mas você quer calçar e se vestir melhor e o salário apenas dá para sobreviver, e disse, bom, vou para os Estados Unidos.

Mas antes fui viver em Reynosa, Tamaulipas, lá vive uma tia e trabalhei porque eu queria vir para os Estados Unidos de uma forma legal e minha tia estava aprontando seus documentos porque vivia na fronteira e é que as pessoas que vivem na fronteira podem tramitar seu visto fronteiriço. Fui e trabalhei por um bom tempo, mas nunca mudei minha credencial de leitor e sempre mantive o endereço de Michoacán, então, quando fui solicitar me disseram que não porque tinha que ter o endereço e voltei a viver em Michoacán e depois voltei para Tamaulipas, foi quando decidi vir para os Estados Unidos.

Em que ano foi?

Em 1996 fui viver em Reynosa. E com quantos anos vieste? Com 22 creio. Em 1997, foi quando vim para este país.

Como cruzou a fronteira?

Cruzei sem documentos pelo lado de Mexicali-Calexico. Mexicali pertence ao México e Calexico já é Califórnia, Estados Unidos. E lá cómo é, há deserto, rio, como foi a passagem? Eu não cruzei pelo deserto, fiz por onde as pessoas entram no país com documentos, no simples cruzamento fronteiriço, escondida. Há um acostamento onde atravessam os automóveis e por ali saem e entram os pedestres e eu cruzei no espaço que utilizam quando as pessoas já estão saindo rumo ao México, isso dá voltas e há um momento em que param e fica um espaço onde cabe uma pessoa, por ali, me encostei e cruzei. Do outro lado estavam me esperando e fui para Salinas, Califórnia, e de lá para San José, na Califórnia também, e de lá para Seattle, Washington, lá cheguei a viver com minha prima. Lá, trabalhava cuidando de crianças e em uma lavanderia.

Como chegaste a Chicago?

Bom, aqui viviam meus irmãos. Saulito – seu filho mais velho – nasceu em Washington e sua relação com seu pai não deu certo e decidi enfrentar minhas responsabilidades como mãe solteira. Com o pai de Emiliano - seu filho mais que, em alguns días, fará aniversario – foi diferente, com o pai dele tinha que pedir autorização até para cortar o cabelo do menino. Rimos a gargalhadas, nada mais dramático do que pedir autorização ao pai para cortar o cabelo do seu filho, mas que perguntem ao meu pai. Ele está aqui? Não, no México. E que disse a ele? Meu amor, vou cortar o cabelo do menino. Não – continuamos rindo, – como eu sempre tomei decisões porque as tomo, pois primeiro corto o cabelo e depois se zangou porque cortei o cabelo do menino. Manda para ele a foto com o cabelo curto, é capaz? É algo que me faz rir porque corto o cabelo e já se zanga, já explode. Passa o tempo o menino vê que está com o cabelo grande como agora e me diz, olhe, corta as pontas, nada mais, e eu rio e digo: em primeiro lugar, eu não sou sua empregada, você não manda em mim. Em segundo, como seu pai não quer que eu corte seu cabelo vou deixar grande até que seu pai chegue aos Estados Unidos e o leve para cortar o cabelo, e me diz: bom, ahora já entendes, já sabes quem manda. Outra gargalhada compartilhada.

O que você sentiu quando migrou?

Foi difícil porque, primeiro, eu não tinha os recursos, segundo, porque meus pais não queriam que eu fizesse por ser mulher, inclusive, quando fiquei grávida de Saulito, meu pai, ele sempre esteve triste porque pensou que fizeram algo contra mim e que eu não queria dizer e com ele nunca falei sobre a decisão de ter enfrentado minha realidade sozinha, com minha mãe sim. Eu decidi ter Saulito porque quis e sempre falei com meu filho e disse para ele. Que idade tem o menino?15 anos. Ou seja, quase que o tiveste quando recém chegou. Sim, quando ele tinha um ano e meio nos mudamos para Chicago.

Você teve depressão depois de emigrar?

Quando vim pela primeira vez não, nestasegunda, sim. Todavia foi o momento em que eu disse não, eu não estou feliz aqui, mas disse Deus meu, tu tens me dado tanto e eu tenho que estar agradecida porque estava no México e quería voltar para os Estados Unidos e agora que estou aqui não estou gostando, mas é pela situação na qual estamos vivendo: não tenho um trabalho, tenho uma criança pequeña, que nasceu no México, não tenho um seguro médico e se adoece só tem Tylenol – paracetamol – e se tem outra coisa lhe dou para a tosse e gripe. É difícil. Graças a Deus e a meus pais lá no México eu tenho uma casa onde viver, tinha meu carrinho e tive que vender fiado para que me paguem agora em dezembro. Nós duas rimos com picardia, sabemos o que é fiar e que nos comprem fiado.

Apreensão, acusações federais e igreja.

Em 2007, seu caso tomou de assalto os noticiários nacionais e internacionais, lembro que todos os dias saíam notas e Elvira Arellano se converteu em uma voz que desnudou o racismo que este país tem contra os migrantes e perversamente contra os não documentados. É um sistema de política migratória detestável. Antes daquele ano eras invisível como os milhões de não documentados que vivem entre as sombras. Como chegou a situação ao grau de se ver na necessidade de entrar na igreja?

Fui presa nas apreensões aos aeropuertos em 10 de dezembro de 2002, depois dos ataques terroristas, o governo federal começou a fazer apreensões em nome da segurança nacional buscando possíveis terroristas – a interrompe o alarme de um automóvel que está estacionado na rua, nesse instante entra uma senhora curiosa com a venda de roupa de segunda mão, paramos a entrevista enquanto Elvira a atende, não compra nada, vai embora. Continuamos - não encontraram terroristas só famílias como eu, que trabalhávamos para sustentar nossos filhos. Trabalhava no aeroporto internacional de O`hare. Chegaram oito agentes federais em minha casa perguntando se eu tinha armas ou licença para portá-las, tratando-me como seu eu fosse uma terrorista. Levaram-me presa, meu filho deixei com a pessoa cuidava dele, me fizeram acusações federais por ter utilizado um número de seguro social de outra pessoa, me puseram em processo de deportação. O F.B.I. trazia o reporte do número social que eu estava utilizando, era de uma mulher polaca e revisaram tudo e o recorde para ver se ela tinha sido afetada, mas não, eu só lo usava para trabalhar. Imagino que o comprou na Villita como todo o mundo, sim como todo o mundo comprei lá. A Villita é o coração do bairro mexicano do povoado de Pilsen, en Illinois.

Deixaram em sair em liberdade sob fiança de 4 mil e 500 dólares, que eu assinei, se violo a fiança terei que pagar, fazem acusações contra mim, não posso sair do Estado, nem me mudar dos Estados até que resolvessem meu caso. Antes disso, foi o tempo mais tranquilo que eu vivi nos Estados Unidos. Como foi que te deixaram sair? Por ser de baixos recursos lá mesmo me disponibilizaram um advogado de ofício federal. Meus companheiros de trabalho me ligavam, mas como tinha o celular descarregado até quando saí, escutei e me deixaram varias mensagens para que não fosse ao trabalho porque estavam fazendo apreensões, liguei para eles para contar que tinham ido à minha casa e me processaram e me fizeram acusações federais. Ou seja, que por causa das acusações federais não te deportaram imediatamente, não queriam nem saber quantos anos de prisão antes de te deportarem, sim.

Foi quando comecei a ir à imigração, ao consulado mexicano. No consulado mexicano me diziam – mude o tom de voz, escuto você séria e agressiva – pues se vão te deportar tem que ir, não podemos fazer outra coisa a mais por você, não temos advogados. É igual como acontece com o consulado da Guatemala, são a mesma porcaria, ah não, mas os da Guatemala estão piorres!Rimos a gargalhadase enquanto eu trato de apagar o incêndio em meu rosto, provocado pela grande ‘bofetada’ que acabo de receber – os consulados centro-americanos são os piores – estou completamente de acordo. O que tenho entendido é que os consulados estão no estrangeiro para representar a comunidade documentada, não os não documentados.

Por exemplo cuando vou ao consulado mexicano pego fila como todos os demais, e as pessoas me veem, me reconhecem e me dizem que não deveria pegar fila porque sou Elvira Arellano, e eu lhes digo que claro que sim, porque se eu busco ter influência e contatos, ter privilégios, sim podem me dar, mas se no dia de amanhã vocês me dizem que os discriminam no consulado e que os tratam mal, eu pelos privilégios que recebo a única coisa que poderei dizer é que não posso fazer nada a respeito, mas, em contrapartida, sendo mais uma eu lhes digo para xingar, como que essas criaturas estão fazendo isso, vamos fazer um protesto, eu tenho peito para protestar. E isso me encanta nela, que não utiliza os focos para benefício pessoal porque sabe que nas sombras há milhões e sua voz é poderosa porque nasce daí mesmo; da marginalização.

Vou te contar que quando recém me arrestaram, no consulado mexicano me apoiaram economicamente porque eu já não estava trabalhando, não sei se foram 100 ou 150 dólares, e por essa quantidade fizeram uma grande festa, contando por todos lados que eles tinham ajudado economicamente a senhora Elvira Arellano, quando ela veio aquí, nós a ajudamos. Não tinha dinheiro para fazer o trâmite, mas graças a Deus minha família e amizades me ajudaram a completar o dinheiro, eu fui e fiz o trâmite. Mas se eu vou e digo que não tenho dinheiro com maior razão compram para mim. O menino acorda, já tem o cabelo comprido, e Elvira o senta no carrinho. Onde vivias nesse tempo? Em Pilsen, na rua 18 e May.

Veja – e me aponta um recorte de jornal que está pregado na parede, no qual aparece ela junto a líderes comunitários e pastores – foi uma vigília realizada no dia 20 de dezembro de 2002 no aeroporto O`hare, no terminal 1, aí foi onde conheci toda a congregação da Igreja Metodista – onde vive atualmente e estamos realizando a entrevista – já tinha conhecido o pastor, mas como ele falava inglês e eu español, pois não nos entendíamos. Me convidaram a visitar a igreja e aceitei, vim como freguesa. Para o você veio em que ano? Em 2006. – toma o menino nos braços e vai tumo à porta de entrada e me aponta a rua – muita gente pensa que eu vim correndo, que a imigração veio correndo atrás de mim e eu encontrei a porta aberta da igreja e entrei para me esconder – vejo a expressão facial e não posso conter o riso, nós dias rimos e o menino de cabelo comprido deixa de chorar, seguramente o assustamos imagino a cena como de um filme, você correndo e consegue encontrar a porta aberta, é que no México assim contam.

Em 2003, já era membro da igreja, e antes de vir a essa igreja vivi em outra igreja, do pastor Landaverde, ali pela 26 – Pilsen – estive lá por oito meses porque já havia chegado minha carta de deportação, mas o congressista Luis Gutiérrez – de origem portorriquenha, um dos homens mais honrados que podem existir na luta legal em favor da comunidade não documentada – e o senador Dick Durbin introduziram uma proposta de lei para deter minha deportação, conseguem detê-la, pois iria surtir efeito em 10 de setembro de 2003.

Família Latina Unida.

Em 2004, foi quando formamos a campanha Família Latina Unida, sob a liderança da mina pastora Enma Lozano e minha, e começam a chegar mais famílias. Uma dessas famílias é a da nossa irmã Julie Contreras, que agora está na LULAC – League of United Latin American Citicenz – é uma das líderes mais importantes da Família Latina Unida, que está em Waukegan – uma cidade do Estado de Illinois – onde está a maior comunidade de hondurenhos, estão fazendo um ministério legal e oferecendo assessoria para buscar um advogado para essas crianças hondurenhas que têm chegado com a “crise.”

Todo o ano de 2003 já estava lutando em favor de uma reforma migratória, participo de manifestações, reuniões, de todas as atividades pró reforma, em favor das licenças de dirigir, e também do meu caso para ficar neste país. Em 2004, formamos a Família Latina Unida, em 2005, nos focamos em buscar um perdão presidencial – administração Bush – e que nos permitissem ficar aqui, das 35 famílias que apresentaram a solicitação de perdão só eu já era elegível por minha questão das acusações federais. Eu digo não vamos lutar por um perdão, eu não necessito de um perdão – o próprio - vamos lutar por todas as famílias.

Nos organizamos e começamos uma sensibilização muito forte com as famílias que íam a Washington, com senadores, obtivemos muito apoio de vários congresistas, principalmente Luis Gutiérrez. Ele era parte do comitê da Família Latina Unida, juntamente com o vereador Dany Solís e o doutor José López, irmão de Oscar López – portorriquenho, preso político – o senhor Rodolfo Benítez também, que teve sua esposa deportada estando grávida de quatro meses. Em 2004, veio o presidente Fox – México – esteve em Cicero – cidade de Illinois –, eu fui uma das oradoras e nessa ocasião juntamente com outra organização, que é a Casa Aztlán, conseguimos entregar uma carta ao presidente e em público eu pedi se ele poderia trazê-la de volta para se reunir com a família, lá mesmo deu instruções ao secretário de Relações Exteriores para solicitar um visto humanitário, isso foi em junho ou julo, e em setembro a senhora Benítez já estava de volta ao país. Foi um trabalho em equipe muito bem articulado.

A pessoas me veem e dizem é a Elvira Arellano, mas não sou eu, somos muitas pessoas envolvidas, eu me coloquei como a valente, como quando dizem quem vai primeiro, quem vai na frente e aí eu me coloco; organizações em nível nacional e internacional estão atrás de mim. Há uma organização de filipinos que se envolvem com outras da América Latina, e eu sou parte disso também. Estou envolvida em outras no México.

Barack Obama

Com a Família Latina Unida começamos a realizar um trabalho muito forte de sensibilização, eu tenho uma foto com Barack Obama quando íamos lutar por licenças de dirigir em Springfield – cabeceira do Estado de Illinois – ele deu seu voto em favor e saiu a saudar nossas famílias, essa vez realizamos uma ‘via crucis’ do migrante, eu ia vestida de Maria, outro companheiro de José, outro de Jesus migrante e assim… ele disse que estava 100 por cento em favor das famílias migrantes, era representante estatal nesse tempo e já trazia aspirações de ser senador, Em que ano foi isso? Em 2003 ou 2004. Vieram as eleições para candidato ao senado e nós como Família Latina Unida registramos famílias para votar, e chegou ao senado e nessa época já estávamos muito fortes na sensibilização, e fomos em busca de congressistas e senadores, e todos contentes em procurar o senador Obama porque era nosso senador e iria nos apoiar, gostávamos tanto dele, e fomos vê-lo, mas quando chegamos um representante seu de sobrenome Sepúlveda – latino para variar, são os piores racistas – foi a pessoa mais despótica, mais desumana, mais desgraçada que possa existir nesse mundo.

Porque não deu importancia em escutar as histórias das famílias e depois foi ter com Obama e disse que nós o havíamos tratado mal, e Obama, em cada oportunidade que tinha, sempre dizia que nós, algumas famílias, em mis de um de seus livros fala de nós, disse que algumas famílias sempre íam ao seu escritório e que éramos desrespeitosos com ele, quando na realidade era esse Sepúlveda que não nos deixava expressar e contada quem sabe que coisas a ele.

Quando entrei no e Obama veio a uma reunião em Humboldt Park – bairro portorriquenho em Chicago –, que votou em favor da criação de um muro na fronteira e que foi atacado pela comunidad latina, pelos líderes latinos, fue aí onde o pressionaram e veio à comunidade para dizer: eu votei, mas quero ter uma boa relação com vocês e foi aí quando disseram que aconteceu isso e isso com seu chefe de pessoal – o dito Sepúlveda – que sempre nos faltou com respeito, Obama pediu desculpas por ele, mas veja só, não cumpriu até hoje.

Sempre e a mesma coisa, sua oratória espectacular que cativa, mas é tudo uma farsa. Claro, nós sempre o apoiamos, a qualquer evento que ele ia sempre participábamos com as famílias porque confiávamos nele.

Como entrou na igreja?

Em março de 2006, chegou para mim a carta de deportação, esperamos para ver se o senador Durbin poderia introduzir outra reforma de lei, mas foi negada, essa propuesta de lei era o que estava detendo minha deportação, ele já estaba irritado porque queria aprovar a proposta de lei dos Sonhadores e nós lhe dizíamos que a reforma migratória era para todos, mas ele dezia que o Dream Act –Ato de Sonho – era como seu bebê, e nós lhe dizíamos: mas nós temos bebês de carne e osso, e se nos deportam, o que vai acontecer com eles. Se irritou e deixou de nos apoiar. Seguramente disse: para que essas famílias deixem de me perturbar vou deixar de apoiar Elvira é foi aí quando me deportaram.

Chegou a carta da imigração para me apresentar no dia 15 de agosto de 2006 aos escritórios de imigração para minha deportação. Falei com meu pastor, já conhecia um pouco do movimento do , fui a Boston conheci un pouquinho, e dizia: e se entro para o covento na da igreja o que aconteceria? E foi quando meu pastor falou com nosso bispo e ele autorizou. Nesse dia 15 de agosto, madrugamos para uma entrevista com El Pistolero – locutor local – em seu programa de rádio e me perguntou o que iria fazer e eu lhe dise que tenho fé em Deus, mas se já vão dar as dez, voltei a dizer, e eu lhe disse que tenho fé que iria ficar no país.

Nos chamou por telefone o meu pastor e nos disse que às dez haveria uma conferência de imprensa na igreja, que fôssemos para lá. Fizemos a conferência e meu pastor me disse, vamos declarar a igreja como para ti. E continua sendo e será pelos séculos dos séculos, há fotografias de Elvira por todos os lados – e é quando tudo explodiu nos meios de comunicação.

E como você se sentia? Por que os meios de comunicação caíram em cima de você, como lidar com tanta luz?

Eu tinha experiência de luta e assim havia dado entrevistas, mas não como aconteceu quando entrei no , toda essa rua – e assinala a saída da igreja – estava cheia de puras caminhonetes com essas antenas de TV, por aqui caminharam – e assinala o corredor da igrela – todos os famosos da Univisión, Telemundo, de todos os noticiarios, até em inglês. Sim, recordo, era o tema do dia a día até de nós que limpávamos casas, no supermercado, no posto de gasolina, com as mesmas babás te tirávamos para bailar a cada momento.

O que passa por tua cabeça quando falam de você?

Creio que foi um tempo de preparação quando estive no porque havia possibilidade de que eu pudesse ficar, mas sempre confiando em que algo pudesse acontecer, para mim esse algo era como um milagre.

Há 10 anos eu já vivia aqui quando me deportaram.Como foi o impacto disso? Dei graças a Deus por ter me permitido ser parte dessa luta, quando a imigração me deteve e me levaram presa, a única que eu temia era que fossem me agredir ou fazer outra coisa comigo, mas não ocorreu nada. Ia pensando que não iria para um lugar que não fosse o meu país. Ia ser bem difícil começar de zero. Cheguei em casa e meus pais me receberam alegres e eu feliz de ver os dois. Recebi convites de organizações para participar de algumas actividades, sou co-fundadora do Movimento Migrante Meso-Americano, a presidenta Marta Sánchez Soler é minha amiga. E com ‘Las Patronas’? Sim, claro as conheci quando não eram “Las Patronas”, quer dizer, quando não eram conhecidas como são agora.

Soube que falaste com o presidente Felipe Calderón.

Me buscaram da Secretaria de Relações Exteriores, queriam explicar-me que tinham feito o que estava ao seu alcance para proteger meus direitos, até onde a lei permitiu. Porque me entrevistaram e me preguntaram o que havia feito o governo mexicano no meu caso e eu respondia com a verdade: nada. Até na minha casa chegou uma pessoa da Secretaria de Relações Exteriores para levar-me uma carta com a desculpa e explicação. Voltaram a me chamar por telefone para dizer que queriam me ver pessoalmente, disseram que eles arcariam com os custos. A senadora Rosario Ibarra de Piedra é uma das mães do Movimento de 68 e o deputado José Jáques y Medina a conhecia muito bem, iam fazer o aniversário e fui à manifestação que organizaram – Matança na Praça das Três Culturas, de Tlatelolco – pois eles me disseram que a cada vez que fosse a reuniões com gente do governo mexicano não fosse sozinha porque eles tergiversam tudo e colocam a seu favor. A reunião, que era nos escritórios da Secretaria de Relações Exteriores, mudaram para Los Pinos, e me emocionei não porque veria o presidente, mas porque conheceria Los Pinos, onde tantas decisões importantes são tomadas. Eu, Elvira Arellano, uma cidadã qualquer em Los pinos? Era algo inimaginável para mim, nunca pensei que iria acontecer algo assim na minha vida.

Toda as pessoas que eu tinha ao redor nesse momento erm anti-Felipe Calderón, porque fraudou as urnas, não estava nem aí para o voto popular. Entrei em conflito porque pensei: se vou serei odiada pelos Obradoristas, mas do contrário decepcionarei as pessoas que colocaram suas esperanças em mim – os milhares de não documentados nos Estados Unidos - então decidi ir e levar a mensagem ao presidente. Advirteram-me que a reunião duraria três minutos – foi inevitável eu rir e ela também ri, três minutos? – e eu disse: está bom, são eles que estão me chamando, eu não estou indo bater na porta deles. Marta Soler, esposa de Pepe Jáques y Medina me acompanhou – a presidenta do Movimento Migrante Meso-Americano – chegamos pois e chegou um dos soldadinhos do Estado Mayor Presidencial e me disse que o presidente só atendería a mim, eu disse que sozinha não iria, ou atende as duass ou não entro. Vai e diz ao presidente, ele se retirou e deixou entrar as duas.

A reunião levou mais de meia hora e quem falou foi eu, já imaginas as fotos por todos os lados, o midiático…, disse a ele que não tinha ido só pelo meu caso, mas por todos esses milhares de mexicanos que se viam obrigados, mães, crianças e adolescentes, gente trabalhadora, porque eles como Estado não lhes garante seus direitos humanos; um trabalho digno, escola, alimentação, segurança. O que ele disse: pois nós ligamos para os Estados Unidos e nem as llamadas atendem. Me perguntou o que eu necessitava, me ofereceu uma bolsa para meu filho por parte do Instituto de Mexicanos no Exterior e eu ri, e me perguntou por que ris e eu lhe disse, mas é que quem é o IME – Instituto de Mexicanos no Estrangeiro – gente que me criticou, me satanizou, alguns poucos me defenderam somente, mas o resto até juntaram cartas e petições para que o governo mexicano não me desse ajuda. Pois lhe disse que não estava ali para pedir algo pessoal, mas pelos milhares, para que haja justiça para todos, se quisessem me ajudar realmente me desse uma nomeação como Embaixadora de Paz, Justiça e Esperança para os Migrantes, me disse que iriam avaliar, certamente nunca me chamaram. Sabiam que eu era anti Felipe Calderón,como deve ser em relação a Peña Nieto, imagino. Nem mencione ese nome! Para mim, ele é um assassino, é uma pessoa que pactuou com o narcotráfico para chegar à Presidência, é um presidente narco, assassino, inútil, destruiu cada vez mais nosso país, não temos paz nem justiça, o mergulhou na violência.

Como foi a questão do retorno aos Estados Unidos?

Porque uma organização decidiu falar com várias famílias para cruzar a frontera, foi aí quando eu decidi apoiar algumas famílias que são do meu povo e vim até a fronteira para averiguar o processo para entrar; estando na fronteira muitas famílias me preguntaram por que eu não entrava e lhes expliquei, porque as autoridades estadunidenses quando me deportaram me deram um castigo de 20 anos e eu já levava sete, faltavam 13, e esses sete anos dediquei à defesa dos direitos humanos dos migrantes. Realmente, não tinha nos meus planos cruzar porque havia decidido viver com meu companheiro, o pai de Emiliano.

Somos interrompidas por uma chamada telefônica, ela me explica que é para os detalhes de sua viagem à universidade de Harvard, já que na última semana de outubro será a oradora principal de uma atividade realizada na universidade por parte do Programa de Estudos Latino-Americanos. Por esses dias completará um ano seu filho mais novo, que melhor celebração há do que ver sua mãe como oradora em Harvard.

A Obama perguntavam os jornalistas e os líderes comunitários por que não me havia ajudado quando era senador e dizia que não estava em suas mãos. Então, minha mensagem antes de cruzar foi lhe dizer que agora sim, estava em suas mãos ajudar-me, agora me deportará outra vez? Não sou nenhuma criminosa. Ainda que os racistas me comparem con assassinos e delinquentes, mas sou apenas uma mãe como os milhões que vêm para este país trabalhar.

Não foi uma decisão fácil cruzar e quero que entendam porque as pessoas dizem “por que ela sim e eu não”, mas eu não fiquei de braços cruzados, lutei aqui e no México quando me deportaram.

Eu estou segura de que Obama não dará a reforma migratória, mas quero saber qual a sua opinião?

Pois não, não a dará, mas podemos exigir e a forma de fazer isso é lançando um candidato independente à Presidência e nós queremos e já estamos juntando assinaturas e realizando todos os protocolos para lançar o congressista Luis Gutiérrez – Elvira tem razão, é ele o único que tem estado firme dia e noite na luta pelos migrantes não documentados – demos até 27 de novembro de limite ao presidente Obama para que se pronuncie em favor da reforma migratória, esse dia é o de Ação de Graças. Tanto democratas como republicanos são culpados dessa demora e que centenas morram no deserto, rio Bravo ou na rota do México para vir para este país, e eles são os culpados pelas deportações massivas e por separar famílias. Pois nós vamos lançar um candidato indepeniente que cumpra isso. Nem voto para os democratas nem para os republicanos, já é tempo de ter um presidente latino que nos represente e nos respeite.

Elvira Arellano atualmente, não pode trabalhar porque seu caso ainda está sem resolução, se sustenta vendendo roupa de segunda mão que pessoas da igreja e da comunidade doam, vende lá mesmo no plantel da igreja, abre a porta com a mesma esperança com a qual uma vendedora benze sua mercadoria esperando que a jornada dê pelo menos para o feijão. Assim se formam as grandes, a adversidade as tornam invencíveis.

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=82949

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